DIÁRIO DE VIAGEM DO JORNALISTA NUNO FERREIRA (EX-EXPRESSO, EX-PÚBLICO) QUE ATRAVESSOU PORTUGAL A PÉ ENTRE FEVEREIRO DE 2008 E NOVEMBRO DE 2010. O BLOG INCLUI TODAS AS CRÓNICAS PUBLICADAS NA REVISTA "ÚNICA" EM 2008, BEM COMO AS QUE SÃO PUBLICADAS SEMANALMENTE NO SITE CAFÉ PORTUGAL. (Travel diaries of Nuno Ferreira, a portuguese journalist who crossed Portugal on foot from February 2008 to November 2010. contact: nunoferreira62@gmail.com ou nunocountry@gmail.com
14/09/08
NO CÉU, DE BOCA ABERTA
MONTE GORDO
O LATOEIRO ANÍBAL BANDEIRA, TAVIRA

De São Brás de Alportel, Aníbal instalou-se em Tavira há 46 anos, como latoeiro, a trabalhar em noras e alcatruzes. Hoje, já ninguém pede esses serviços e Aníbal não esteve de modas. Passou a construir barcos azuis e vermelhos, cataventos azuis e vermelhos, flores, caranguejos cor de laranja, pássaros amarelos. Os amigos também ajudam, trazem tampas de garrafas de uísque, candeeiros antigos.
PEGO DO INFERNO

Por esta altura, tinha indicações do jornal para fotografar pessoas. O país já era desertificado quanto bastasse. No Pêgo do Inferno, a uns seis quilómetros de Tavira, num sábado de Abril, descobri duas crianças espanholas juntamente com dois adultos a tomar banho. Fartei-me de fotografar esta pequena e a irmã ou amiga, obssecado em obter fotos de...pessoas.
PÊGO DO INFERNO EM VIDEO
LOULÉ-FUZETA (CRÓNICA PUBLICADA NA "ÚNICA")
“Atravessei o Guadiana a salto no dia 3 de Fevereiro de 1963”, recorda o grande mestre de cantaria José das Neves Moleiro, 68 anos, na Casa de Pasto Rústica à beira da estrada, em Bordeira, freguesia de Santa Barbara de Nexe. Encontrei-o à frente de um martini às voltas com a memória. “Ao todo, aqui eramos uns cem canteiros e quase tudo abalou primeiro para Cascais e depois para França. A gente não queria nada com a guerra colonial”.
Os dedos da mão de José não chegam para contar os monumentos franceses que ajudou a restaurar: “Em Versailles, logo à entrada, junto às grades, está lá trabalho cá do velho e nas cocheiras também. E se for à Notre Dâme, procure uma estatuazinha pequena na parte de trás do jardim. Fui eu que a restaurei”. Os olhos de José das Neves brilham de orgulho. Por perto, mais tímido, o mestre João Dionísio escuta a conversa de mãos nos bolsos. “E tu João, tu também restauraste muita coisa”, espicaça José. “ Em Paris? A Assembleia Nacional, o Louvre, os Invalides, o Sacré-Coeur... lembras-te do Sacré- Couer, pedra marafada, rija de um raio, mais dura que o ferro...”
Deixei a Bordeira e os canteiros entregues à conversa sobre os futuros museu da cantaria e monumento aos canteiros e fiz-me à imprevisibilidade da estrada: Uma empregada rabujenta numa churrasqueira movimentada- “voltam a deixar entrar clientes depois das três da tarde e abalo daqui...”, uma mirada rápida às ruínas romanas de Milreu, um funeral silencioso em Estói.
Nada me preparara para, na exaustão de final do dia, peregrinar de mochila pesada às costas e olhos inchados, as ruas brancas, encolhidas e intermináveis de Olhão. “Sai da frente piolhoso!”, gritaram umas raparigas em pleno bairro da Barreta, comigo de olhar posto nas açoteias islâmicas, no quadrado das casas, perdido no labirinto de ruelas, pátios e becos.
Vinguei-me no dia seguinte na liberdade da ilha de Armona onde os poucos clientes do café Convívio comentavam o programa da Fátima Lopes: “O que é que a mim me interessa que a moça tenha um pára-brisas mais cheio ou menos cheio? A vida é de cada um. Aquela Maya...ganha uma pipa de massa a dizer mal dos outros”.
De uma ponta à outra da ilha são uns oito quilómetros de dunas, areal, uma ou outra carcaça de barco. O barco que atravessa a Ria Formosa parecia estar ali parado à minha espera para me levar à Fuzeta e a um peculiar duelo França-Portugal de “pétanque” entre os turistas franceses do camping local e os pescadores da zona. “Diz lá à francesa que agora é a minha vez. Você chegue-se para lá que ainda leva com uma bola em cima”. De repente, da tasca mais próxima, soam resquícios de uma discussão: “O quê, o cigano está bêbedo outra vez? Eh, o homem vive provocando...”
Os dedos da mão de José não chegam para contar os monumentos franceses que ajudou a restaurar: “Em Versailles, logo à entrada, junto às grades, está lá trabalho cá do velho e nas cocheiras também. E se for à Notre Dâme, procure uma estatuazinha pequena na parte de trás do jardim. Fui eu que a restaurei”. Os olhos de José das Neves brilham de orgulho. Por perto, mais tímido, o mestre João Dionísio escuta a conversa de mãos nos bolsos. “E tu João, tu também restauraste muita coisa”, espicaça José. “ Em Paris? A Assembleia Nacional, o Louvre, os Invalides, o Sacré-Coeur... lembras-te do Sacré- Couer, pedra marafada, rija de um raio, mais dura que o ferro...”
Deixei a Bordeira e os canteiros entregues à conversa sobre os futuros museu da cantaria e monumento aos canteiros e fiz-me à imprevisibilidade da estrada: Uma empregada rabujenta numa churrasqueira movimentada- “voltam a deixar entrar clientes depois das três da tarde e abalo daqui...”, uma mirada rápida às ruínas romanas de Milreu, um funeral silencioso em Estói.
Nada me preparara para, na exaustão de final do dia, peregrinar de mochila pesada às costas e olhos inchados, as ruas brancas, encolhidas e intermináveis de Olhão. “Sai da frente piolhoso!”, gritaram umas raparigas em pleno bairro da Barreta, comigo de olhar posto nas açoteias islâmicas, no quadrado das casas, perdido no labirinto de ruelas, pátios e becos.
Vinguei-me no dia seguinte na liberdade da ilha de Armona onde os poucos clientes do café Convívio comentavam o programa da Fátima Lopes: “O que é que a mim me interessa que a moça tenha um pára-brisas mais cheio ou menos cheio? A vida é de cada um. Aquela Maya...ganha uma pipa de massa a dizer mal dos outros”.
De uma ponta à outra da ilha são uns oito quilómetros de dunas, areal, uma ou outra carcaça de barco. O barco que atravessa a Ria Formosa parecia estar ali parado à minha espera para me levar à Fuzeta e a um peculiar duelo França-Portugal de “pétanque” entre os turistas franceses do camping local e os pescadores da zona. “Diz lá à francesa que agora é a minha vez. Você chegue-se para lá que ainda leva com uma bola em cima”. De repente, da tasca mais próxima, soam resquícios de uma discussão: “O quê, o cigano está bêbedo outra vez? Eh, o homem vive provocando...”
JOGO DE PÉTANQUE JUNTO AO CAMPISMO DA FUZETA

Mal o barco aportou na Fuzeta, deparei com um interessante jogo de pétanque entre turistas franceses do parque de campismo e pescadores da zona, nenhum particularmente simpático. Até que surgiu, entre os mirones assistentes, um cicerone. Era ex-guarda-fiscal, natural de Castelo Branco e vivia ali há mais de 25 anos: "Sabe, esta gente é complicada, não são abertos como nós..."
FOTOGRAFADO RELUTANTE, FUZETA
ILHA DE ARMONA DO LADO DA FUZETA
ARMONA

Esta senhora corre apressada para receber provavelmente alguém que chegou no Rio Belo. Eu vou precisamente para o lado contrário, o da praia. Os homens do barco explicaram-me que posso passar as casas e o parque de campismo e atravessar os oito quilómetros de praia até ao lado da ilha de Armona que dá para a Fuzeta. "É um passeio bonito e lá tem barco para a Fuzeta".
ILHA DE ARMONA, MARÇO DE 2008
OLHÃO

Olhão estende-se por ruas, ruelas, becos e travessas. A sensação que eu tinha é que aquele labirinto de casas brancas, prédios de oito andares e avenidas, gente por todo o lado, nunca mais acabava. Um misto de Barreiro e Peniche, não foi própriamente a cidade mais simpática para terminar a caminhada naquele dia. Os pés doíam-me, a carga nas costas também e não havia meio de encontrar um local para dormir. Acabei deitado na relva de um Intermarché, na saída da cidade, a beber grandes quantidades de água, os pés descalços e a pensar se não seria melhor continuar em direcção a Tavira.
FUNERAL EM ESTÓI

Foi estranho. Ia a passar junto a um campo de futebol em terra batida. Umas jovens crianças em bicicleta tinham tapado o rosto para eu não as fotografar. De repente, surge-me este funeral. Afastei-me o mais que pude para não incomodar ninguém e tirei a fotografia. Senti-me um intruso num momento da vida local. Alguém conhecido faleceu e eu, ali de passagem, a intrometer-me na vida e morte de Estói.
ESTÓI
CIMENTO
JOSÉ DAS NEVES

O mestre José das Neves inspecciona a fractura na rocha. Dali do lugar de Funchais, Bordeira, Santa Bárbara de Nexe, saíram mais de cem canteiros. Começaram em crianças nas pedreiras da zona e acabaram a restaurar monumentos em Lisboa, Cascais e em Paris. "Lá em Versailles, 'tá trabalho cá do velho. Os monumentos em França estragaram na guerra e a poluição e o gelo também dão conta deles. Não faltava trabalho à gente". E No Sacré Couer? "Uh, essa pedra era mais rija que um raio, mais dura que ferro".
E agora? "Agora imita-se o que se fazia com as máquinas".
MESTRES DA CANTARIA, JOSÉ DAS NEVES E JOÃO DESIDÉRIO, BORDEIRA, SANTA BÁRBARA DE NEXE
VISTA DO CASA PAIXANITO

Cheguei a Loulé morto de cansaço e de fome. Decidi vingar-me nas entradas da famosa Casa Paixanito e acabei a gastar uma fortuna, entre carapaus alimados e xerém com berbigão e camarão. De repente, toca o telemóvel. Para não incomodar, vim atender a família cá para fora. Quando dei por ela, já tinha o empregado mais novito ao meu lado. Surrealista...
MERCADO DE LOULÉ

Começou a chover bastante a uns dois quilómetros de Loulé. Encolhia-me dentro do meu equipamento impermeável quando parou uma Renault 4. "Queres entrar?", perguntou um tipo aí com uns 20 e tal anos. Contou-me que atravessou a costa leste da Austrália de mochila e camioneta. "É sempre um prazer ajudar um mochileiro", explicou. Pensei como seria bom se todos em Portugal fossem assim.
MORTE NA ESTRADA ÀS PORTAS DE LOULÉ
ARTESANATO
PARRAGIL-LOULÉ

À medida que se desce o Barrocal e nos aproximamos de Loulé, os rostos abrem-se e atmosfera junto à estrada transforma-se. Senti alívio em ter deixado a serra e as povoações imersas naquela desconfiança atávica. Mais tarde, contaram-me que a GNR tem andado a circular por todos os povoados a incentivar as pessoas a desconfiarem dos estranhos.
ALTO FICA

Um dos problemas no interior serrano do Algarve é a ausência de locais simples para comer. Parei em Alto Fica porque tinha dois cafés mas nada. Sentei-me no exterior de um deles, vigiado por uns locais à porta do estabelecimento defronte. Por essa altura, já os meus níveis de paranóia estavam no máximo. Até que ouvi alguém: "Ele esteve fotografando a tua moto".
BENAFIM
ALTE

Em Alte, há uma dona de uma loja de artesanato que sempre que me via- estive lá uns dias- comentava: "Hum, a pé? A pé até ao Minho? Você não vai conseguir..." Depois, virava-se para uma amiga acabada de chegar: "Achas que ele consegue atravessar Portugal a pé? Nã consegue..."
Ficavamos a conversar e a ver chegar as excursões de turistas vindos das bandas do litoral: "Ca c'est combien? Oh, merci..."
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