DIÁRIO DE VIAGEM DO JORNALISTA NUNO FERREIRA (EX-EXPRESSO, EX-PÚBLICO) QUE ATRAVESSOU PORTUGAL A PÉ ENTRE FEVEREIRO DE 2008 E NOVEMBRO DE 2010. O BLOG INCLUI TODAS AS CRÓNICAS PUBLICADAS NA REVISTA "ÚNICA" EM 2008, BEM COMO AS QUE SÃO PUBLICADAS SEMANALMENTE NO SITE CAFÉ PORTUGAL. (Travel diaries of Nuno Ferreira, a portuguese journalist who crossed Portugal on foot from February 2008 to November 2010. contact: nunoferreira62@gmail.com ou nunocountry@gmail.com

19/08/10

A PÉ, NO CALOR (CLICAR PARA LER NO SITE DO CAFÉ PORTUGAL)

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Lembro-me como se fosse hoje. Foi há dois anos. Estava a atravessar o norte do Alentejo por entre povoações desoladas e rectas intermináveis. Nem sequer estavamos no pino do Verão como agora. Corria o mês de Junho. Junto a uma esplanada no centro de Fronteira, distrito de Portalegre, um homem virou-se para mim e perguntou: “Você não é aquele desgraçado que andava ontem a caminhar perto de Avis com este calor?” Não, não era eu. Tinha vindo por Estremoz e Sousel. Mas, disse para comigo, bem que até podia ter sido.
Nesse mesmo dia, num assomo de teimosia, depois de almoçar em casa de pessoas amigas em Fronteira, deixei o arrazoado de casas baixas a dormitar à hora da sesta, do sono, à hora em que nem os animais ousam largar a sombra para me aventurar em direcção a Cabeço de Vide. Para lá de uns pouco eucaliptos, não havia sombras. A dado momento, parou uma viatura com uma família lá dentro: “Olá, não quer boleia?” Que não, que precisava fazer aquilo a pé. Aquilo era uma recta interminável de asfalto quente que só acaba quando, à esquerda, se avista Cabeço de Vide num alto.
Perto de Cabeço de Vide, um grupo de homens asfaltava à estrada. Tudo ali era vapor quente a trepar narinas a dentro, alcatrão a derreter. Os operários ficaram a olhar para mim de boca aberta. Eles, sim, eram obrigados a estar ali. O que motivaria um indíviduo a meter-se à estrada naquelas condições? Até que um gritou: “Homem, saia daí que ainda queima os ténis, venha por aqui”.
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Em dias de canícula, todos os objectivos que tracei para o Portugal a Pé- redescobrir o país, as pessoas, a cultura, o património- se confontam com a dura realidade da caminhada: O asfalto aquece, o sol não dá tréguas e empapa de suor a t-shirt, a água passa a ser o bem essencial e o som de água a correr num qualquer fontanário junto à estrada soa à melhor das sinfonias.
Recentemente, larguei a zona da Régua que devido a uma sequência de dias com 37, 38 graus se transformara num poço sem ventilação. Nem a presença do Douro refrescava aquelas ruas absortas num espesso e pesado manto de calor. Os habitantes moviam-se pela Rua dos Camilos de rostos cozidos e lentidão nas pernas. Viajantes saíam das carruagens de janelas abertas da linha do Douro como se acabassem de deixar um sauna.
À medida que subia a EN222 em direcção a Resende, a perspectiva sobre a Régua ía melhorando, as colinas, os socalcos, as vinhas convidavam à contemplação mas os pés pediam-me que avançasse. Encontrei uma pequena fonte com água onde um camionista, que me olhou de viés, se abastecia. Aproveitei para seguir mas acabei derreado num cruzamento precisamente no Café Cruzamento, em São Gião, a escutar as habituais mas fascinantes histórias locais misturadas com uma resenha das novelas do dia anterior. Ao fim de uma hora, descobri que tinha acabado de beber ali dois litros de água.
A pior caminhada com calor foi na segunda semana de Julho de 2008. Em Gavião, uma brasa seca e calcinante convidava toda a gente a fugir para a Praia do Alamal, no Tejo. Atravessei o rio, alcancei Belver mas acabei em Mação derreado, num dia em que os termómetros marcavam 39 graus.
Nem tudo é mau com calor, no entanto. Uns dias mais tarde, desci a Serra de Alvelos em direcção a Oleiros. Uma ou outra camioneta carregada de madeira descia a inclinacao de dez graus da estrada deserta. Os motoristas lancavam-me olhares de espanto. Parei junto a uma fonte. Aquela hora, umas 14h00, já tinha bebido três litros de água mas precisava de mais para me hidratar e para me molhar. Ali a vista alcancava a Serra do Muradal, a Serra do Acor, a Gardunha, o perfil mais imponente da Serra da Estrela ao longe e, esturricando na planicie, uma mancha branca de prédios a uns 40 quilómetros: Castelo Branco.
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Desci até ao vale de campos de milho e casas de xisto da aldeia de Isna na hora do calor mais intenso. Atravessei carroças de madeira, palha para o gado, um fontanário. Um homem a carregar areia para a construçao de uma moradia indicou-me o Isna Sport Clube Alvelos. Adelino, o barmen e animador das instalacoes, 30 anos de Cometna, na Amadora, recebeu-me de bracos abertos. Ali, a hospitalidade do povo serrano que nas invasões napoleonicas se escondeu na montanha e escondeu o milho, mede-se em minis de cerveja. Cada homem que entrava fazia a mesma pergunta: "E este amigo é quem? Dá-lhe uma mini que pago eu". Acabei com umas 12 minis à frente que tentei pagar ou oferecer. "Aqui você não paga nada, quem é de fora não paga". Até que alguém ganhou coragem e perguntou: "Era você a subir a Serra? Tive pena de si, até lhe queria dar boleia. Está muito calor..."

1 comentário:

vinicius disse...

Boas.
Admiro a sua coragem,e espirito de aventura.Faço uma pequena ideia o que será estar em contacto directo com varias gentes, terras, tradicões.Sou um apaixonado pelo interior do nosso pais principalmente aldeias a onde ainda se vai sentindo a pura tradição, pessoas simples humildes coisa que já não se vê.Já fui de Albufeira a Fátima em bicicleta,mas ainda não perdi a esperança de um dia fazer o que vocé está fazendo mas em bicicleta.
Continuação de boas caminhadas.

 
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