DIÁRIO DE VIAGEM DO JORNALISTA NUNO FERREIRA (EX-EXPRESSO, EX-PÚBLICO) QUE ATRAVESSOU PORTUGAL A PÉ ENTRE FEVEREIRO DE 2008 E NOVEMBRO DE 2010. O BLOG INCLUI TODAS AS CRÓNICAS PUBLICADAS NA REVISTA "ÚNICA" EM 2008, BEM COMO AS QUE SÃO PUBLICADAS SEMANALMENTE NO SITE CAFÉ PORTUGAL. (Travel diaries of Nuno Ferreira, a portuguese journalist who crossed Portugal on foot from February 2008 to November 2010. contact: nunoferreira62@gmail.com ou nunocountry@gmail.com

08/05/09

PARA A SERRA OUTRA VEZ

Ovar-Arouca 324
Depois da minha paragem de Abril, estava com um pouco de receio de como os meus pulmões responderiam ao apelo da estrada. Dormi em frente às ondas do Furadouro e na manhã seguinte, parti de Ovar, um sábado de mercado, febril, soalheiro, gente a acorrer das mais diversas ruas e ruelas em direcção às barracas de feira.
Estava tão ansioso que não perdi muito tempo ali. Avancei pelas ruas compridas e repletas de azulejo de Ovar em direcção a Guilhovai e dali fiz-me ao campo, com a particularidade do verde dos campos ser atravessado na zona por duas auto-estradas a uns dois quilómetros uma da outra. É como se dois rios de asfalto corressem muito tempo como artérias de betão paralelamente um ao outro na direcção da Invicta e quase se beijassem entre Estarreja e Ovar.
Não perdi muito tempo a observar viaturas ligeiras, autocarros e camiões, os meus rios são outros. Acabei a desaguar na comprida, extensa e mui rural freguesia de São Vicente de Pereira Jusã. Naquele sábado quente de Maio, era como se uma parte substancial da povoação se tivesse atirado às terras, lavrando, estrumando, tractores e moto-cultivadores a atravessar uma estrada estreita, sinuosa, movimentada, umas vezes com bermas, outras sem bermas.
Aqui o condutor de um tractor processava um marcha-trás aparatoso para conseguir enfiar o bicho mecânico no portão da sua casa rural. Ali, uma vacaria, as vacas espreitando de janelas de madeira velha. Mais estrume, mais campos lavrados, as casas erguidas ao longo da estrada, ao jeito de cada um. Muros antigos em derrocada seguidos de vivendas vistosas.
Foi quando ao fim de uns quilómetros, essa linha raquítica e maltratada me levou a Cucujães onde, finalmente, entre prédios modernos revestidos à azulejo, casas baixas e terraços em cimento, tive a meus pés o que dantes seria um vale bucólico. Hoje, a vista alcança uma mancha desordenada de fábricas e prédios que começa por se chamar Feira, mais à frente dá pelo nome de São João da Madeira e lá mais em baixo, no meu caminho, se chama Oliveira de Azeméis.
Ovar-Arouca 114
Foi na descida de Cucujães para Oliveira de Azeméis, entre eucaliptos e moradias, que me apercebi do esplendor megalómano de alguma construção da cidade. Desce-se entre campos verdes, sobe-se junto a uma rotunda e a uma grande fábrica de lacticínios e descobre-se edifícios altos, pontiagudos, o mais exuberante de todos, o do Hotel Dighton, culmina numa plataforma giratória. Sem budget para o restaurante giratório do Dighton, acabei na velha e boa Oliveira de Azemeis de outros tempos, numa pensão cujo único senão é ter o meu quarto virado para a garagem da Transdev, outra marca fundamental do presente industrial do município juntamente com os iogurtes, plásticos e moldes.
Em Ossela, por debaixo do viaduto da via rápida que liga os 11 quilómetros que separam Oliveira de Azeméis de Vale de Cambra, pensei como se sentiria Ferreira de Castro se voltasse dos tempos da "Suíça portuguesa" e aterrase entre vinhas e fábricas, rotundas e outdoors (continua).

ENTREVISTA NA TSF
http://tsf.sapo.pt/Programas/programa.aspx?content_id=1016877&audio_id=1204639

3 comentários:

Fatima disse...

Nuno obrigada por deliciar o nosso olhar com imagens tão bonitas.
Continuação de boa viagem.
Espero que o próximo post não demore muito...

Nuno Marçal disse...

Bem Vindo a estrada!

Bons Caminhos!

Nuno Marçal
Bibliotecário-Ambulante

Vagamundos disse...

Bom regresso à estrada. Esperemos que a caminhada possa agora prosseguir sem incidentes de maior.
Abraço

 
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