DIÁRIO DE VIAGEM DO JORNALISTA NUNO FERREIRA (EX-EXPRESSO, EX-PÚBLICO) QUE ATRAVESSOU PORTUGAL A PÉ ENTRE FEVEREIRO DE 2008 E NOVEMBRO DE 2010. O BLOG INCLUI TODAS AS CRÓNICAS PUBLICADAS NA REVISTA "ÚNICA" EM 2008, BEM COMO AS QUE SÃO PUBLICADAS SEMANALMENTE NO SITE CAFÉ PORTUGAL. (Travel diaries of Nuno Ferreira, a portuguese journalist who crossed Portugal on foot from February 2008 to November 2010. contact: nunoferreira62@gmail.com ou nunocountry@gmail.com

24/09/10

HERÓIS DO PATRIMÓNIO ABANDONADO

Nos solitários e pouco conviviais dias da semana, quando atravesso localidades desérticas do interior, posso apreciar a fachada, a escadaria e a envolvente de muitas capelas e igrejas mas dificilmente posso entrar e apreciar o interior. O património histórico religioso está entregue a uma máquina burocrática estatal que classifica mas não tem dinheiro para manter e proteger convenientemente. Sem verba para funcionários e o advento do roubo indiscriminado de arte sacra, as chaves dos locais de culto e de um espólio turístico-religioso riquíssimo fica a maioria das vezes na mão de populares, devotos e carolas.
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Em Maio de 2009, atravessei o “Vale Encantado” de Tarouca. Num vale verdejante, entalado entre serras, com mosteiros, igrejas e uma proximidade estratégica com Lamego e o Douro, o concelho tem tudo para ser visitado.Curiosamente, o património que pude visitar com maior facilidade foram as Caves da Murganheira. Tirei a mochila, pedi para visitar e de um momento para o outro encontravam-me entre paredes de granito azul e garrafas, muitas garrafas de espumante.
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Igrejas e Mosteiros, esses, é toda uma outra história. Em São João de Tarouca, o mosteiro estava entregue a António Vieira Caetano, 72 anos, que durante anos trabalhou em lojas de vestuário lisboetas como a alfaiataria Rosa & Teixeira. Um dia, António regressou à terra natal e decidiu tratar do mosteiro. “Foi um chamamento divino”, contou-me, “quando cheguei em 1977 o Mosteiro tinha as portas abertas, estava sem telhado, tinha os azulejos descolados e esculturas em terracota desfeitas”.
António Caetano, além de cicerone do Mosteiro de São João de Tarouca, era um contador de histórias: “Uma vez um ex-presidente da Junta de Freguesia apontou-me uma pistola porque queria construir habitação junto ao mosteiro e eu opus-me. Já faleceu, Deus o tenha em descanso”.
Para ajudar a preservar o monumento nacional, António Vieira Caetano chegou a colocar jovens de ocupação dos tempos livres a cortar paus para escorar as talhas. Durante o governo de António Guterres, o mosteiro sofreu grandes obras de restauração alegadamente devido aos apelos insistentes de António. “O Guterres veio cá , eu estava ali ao fundo e ele perguntou: Onde está o senhor Caetano, esse herói, que eu quero dar-lhe um abraço”.
Enquanto atravessava a região, deparava-me com histórias semelhantes. Em Salzedas, por exemplo, era o padre António Teixeira quem lutava pela preservação da Igreja Matriz, das Ruínas da Abadia Velha e apelava à conservação do bairro judeu da localidade. “A judiaria de Salzedas é a nossa jóia da coroa e está a caír aos bocados. É uma peça única. Temos aqui um bairro judaico intacto, diferente de Belmonte. Aqui o bairro funcionava em gueto, as casas comunicavam uma com as outras. Pode-se circular por 40 habitações em circuito fechado, sem vir à rua”, explicou-me.
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Em Salzedas, encontrei o padre António Teixeira, entre a celebração de um casamento, a necessidade de guiar uma excursão à Abadia e a venda de artesanato, muito do qual tem a ver com as abadias dos Monges de Cister.
Antes de Salzeda e antes da Murganheira...passara em Ucanha para procurar a Dona Rosa, durante muitos anos a anfitriã da célebre Torre da povoação e hoje quem guarda a Igreja Matriz. Ucanha, o rio Varosa bordejado por salgueiros e amieiros, os campos de milho, olivais e vinhas tendo como pano de fundo a Serra de Santa Helena, é uma jóia preservada pelo projecto “Aldeias Vinhateiras do Douro”.
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Como muito do nosso património, a Torre de Ucanha esteve durante muito tempo entregue ao vento. “Estava abandonada e eu botei-lhe a mão”, contou-me Rosa de Jesus, 74 anos Foi ela que
durante mais de 20 anos cuidou da Torre Fortificada e da Igreja Matriz de Ucanha. “Tratei daquilo, fiz lá um pequeno museu com coisinhas agrícolas, fazia as limpezas e explicava as pessoas a História da Torre. Eu não sei ler mas fui aprendendo com os turistas. Para o fim parecia um papagaio, sei tudo de cor”. A Torre passou a ser a razão de viver da mãe de 11 filhos. “Era como a se a Torre fosse minha. Recebia louvores dos turistas no livro de visitas…”
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Em 2001, Rosa de Jesus foi substituída pelo turismo local. “Foi como uma facada nas costas. Eu fazia aquilo por orgulho, prazer, por paixão”. Sem entender o afastamento, Dona Rosa adoeceu. “Estive em depressão e em tratamento. Então, eu estava acostumada a estar a fazer o comer e apagar o lume para ir atender os turistas…”
Sem a “sua” Torre, Rosa de Jesus continuou a tomar conta da Igreja. Não me deixou ir embora de Ucanha sem visitar a Igreja Matriz. Estava fechada, sim, mas ela tinha a chave. Num ápice, ultrapassámos a sobriedade granítica do exterior. Não estava preparado para a riqueza brutal da talha dourada dos retábulos, para a beleza enorme dos caixotões pintados do tecto. Apercebi-me da presença de um casal de turistas ingleses no exterior e chamei-os. Traziam um livro que lhes servia de guia. Expliquei-lhes que por sorte a Igreja Matriz estava aberta e que fecharia mal a Dona Rosa regressasse a casa. Entraram. A mulher soltou um : “Oh meu Deus!” Ficaram extasiados. Queriam saber coisas, muitas coisas, em inglês. Dona Rosa respondia em inglês e eu tentava traduzir para português. Por momentos fui quase guia turístico. Um guia do nosso património semi-abandonado.
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19/08/10

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NO MINHO

 
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Olá
Interrompi a viagem na Apúlia (Esposende), retomarei a fase final em meados de Setembro.
Abraço a todos
Nuno Ferreira

NO FIM DA LINHA (CLICAR PARA LER NO SITE CAFÉ PORTUGAL)

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Março de 2008. Estava cansado de caminhar pela nefasta EN 125. O trânsito é intenso e sai de onde menos se espera. Viaturas executam manobras perigosas em frente a placas de cores e letras desbotadas a anunciar “tolerância zero” e os cartazes turísticos apelam em inglês a um fantasioso “Allgarve”, uma espécie de terra prometida que um dia gostaria de vir a conhecer. Enveredei por uma viela rodeada de um muro em pedra e desemboquei na estação de caminhos de ferro de Meixilhoeira Grande. Sentei-me. O horizonte prometia um fim de dia, um pôr de sol à Algarve e por ali fiquei. Tive ali pela primeira vez a mesma sensação que viveria em diversas etapas da caminhada, sempre que me encontro junto ao nosso depauperado património ferroviário. Disse para mim mesmo: O Wim Wenders de “Ao Correr do Tempo” ía adorar isto, estas colunas em ferro a enferrujar, o velho relógio que não funciona, o comboio que há-de chegar um dia.
Sentado num dos bancos de madeira verde da estação, ironia das ironias, encontrava-se um alemão. Que sim, que tinha uma boa vida em Colónia mas do que ele gostava era daquilo: O Sol a baixar sobre as linhas e a dourar os carris, as ervas altas a invadir as bermas, os azulejos a menos nas paredes da estação. Tudo o que eu via como desleixo ele observava como algo que mais tarde ou mais cedo está condenado a desaparecer, mesmo num dos países mais meridionais e pobres da Europa.
O comboio, esse, alguma vez tinha de chegar. Arribou a balançar de um lado para o outro e pejadinho de graffitis como o metro de Nova Iorque. Nós estavamos para ali há tanto tempo a gozar o Sol e a conversar com parcimónia- o alemão de sandálias e chapéu de palha em Março- que quase saltámos quando a carruagem veio de Lagos a uma velocidade que dispensa cronometragem. Foi quando, num assomo de stress, vindo de um mundo que exige pontualidade e rapidez, um homem se atirou ao comboio em andamento, agarrado à maçaneta metálica. Eu e o alemão olhámos um para o outro e rimos. Nenhum dos dois estava ali para apanhar o comboio mas apenas para usufruir a paz de uma velha estação em decadência.
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O caminho de ferro em Portugal foi tão negligenciado que se transformou um must para potenciais Wim Wenders, amantes de caminhadas e nostálgicos das linhas de via estreita, como a do Tua ou do Tâmega. A diferença é que em Inglaterra ou na Suíças as linhas de via estreita funcionam em prole do turismo e dos amantes dos caminhos de ferro e aqui são largadas ao vento, à chuva e às intempéries como estandartes do abandono.
Abril de 2008. Parti do Pomarão, num dia tristonho de chuva e o Guadiana enlameado e fiz-me ao que resta da antiga linha de caminho de ferro que ligava as Minas de São Domingos ao rio. Há mais de 40 anos, quando a mina faliu, levaram dali tudo: Os carris, as locomotivas, os vagões. Restavam pedaços calcinados de antigas travessas, os pilares em ruínas das mais de 10 pontes e a tijoleira fantasmagórica dos sucessivos túneis. Lá dentro, procurei imaginar o som estridente das máquinas e a fumaça da Estiphania , a primeira locomotiva mas tudo o que escutei foi o “tac, tac” dos ténis na lama e o “ping ping” que caia das abóbodas. Quando, cerca de 18 quilómetros depois, cheguei às minas, o ex-mineiro António Marciano Barão perguntou: “Veio do Pomarão pela linha com essa tralha às costas?” Fui mas gostaria que um dia turistas a pudessem percorrer entre as minas e o Pomarão.
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A minha peregrinação por Portugal profundo continuou a deparar-se com o fim de uma era de carris e travessas. Ainda nesse mês, avancei até à estação de Serpa/Brinches com intenção de caminhar pelo ramal de Moura. Já uma vez ali tinha estado. É daqueles locais onde só se escuta o som das placas ferrujentas a uivar ao vento, onde o tempo congelou. Apetece sentar e ficar a ver as ervas ondulando à nossa frente. Ao fim de uns 500 metros descobri que as ervas estavam tão altas e cobrindo os carris de tal forma que era impossível progredir...
Em alguns casos, autarquias transformaram pedaços de antiga via em eco-pistas. Numa manhã muito fria e húmida de Fevereiro deste ano, larguei Torre de Moncorvo e atravessei uma boa dezena de quilómetros na antiga linha do Sabor, as nuvens acumulando-se sobre a vizinha Serra do Reboredo, o céu a querer nevar. Noutros casos, como deparei há pouco tempo em Vila Real, pedaços de via estreita confundem-se com pedaços de modernidade. É possível visitar o maior shopping da cidade e antes, percorrer por entre uma mão cheia de prédios, o que resta de parte da linha do Corgo, que ligava a Régua a Chaves.
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Perto de Santa Comba Dão, depois de um périplo pelas margens do rio Dão, fotografei o que resta de uma ponte da antiga linha do Dão e dei comigo a perguntar-me se fotografar o que fica ao abandono no Portugal profundo não será já uma forma de arqueologia? Entre Mondim de Basto e Celorico de Basto, debati-me por entre uns eucaliptos para fotografar a velha ponte que ligava a Arco de Baúlhe. Agora liga a lado nenhum. Paira sobre a estrada, abandonada por Deus, pelos homens, entregue ao acaso.
A mais mediática de todas as velhas linhas é a do Tua. Em finais de Janeiro deste ano, o Douro galgava as margens em tons lamacentos e bravios. Ao longe, no frio luminoso da manhã gélida ouviam-se explosões. Era a EDP que, retirados 1.200 metros de carris da linha de caminho de ferro do Tua, estudava o terreno onde construirá mais uma barragem. Homens morreram a cortar a rocha e a estabelecer nela um patamar para que o comboio chegasse a Mirandela. Foi uma obra épica e dolorosa. Hoje, outros homens encarregam-se de a colocar debaixo de água para que os amantes dos comboios a possam um dia visitar de escafandro. Água, é coisa que não faltava em Janeiro no Rio Tua quando me acerquei das vigas de madeira cobertas de gelo da linha. O rio corria em direcção à foz em tons dramáticos de azul escuro, numa adrelina branca feita de espuma embatendo contra os rochedos. A rebeldia do Tua assemelhava-se a de um animal enfurecido, como um toiro selvagem à espera de um domador experimentado que o faça esfocinhar no pó e na areia. Nada que uma parede de betão bem feita não sustenha.
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Tive para mim toda essa manhã, toda a linha e todo o tempo do mundo, exceptuando as explosões que me obrigaram a contornar a entrada e descer até à linha pelos socalcos em pedra de Tralhariz.
"O que é que você acha?", perguntou-me um velho habitante de Carrazeda de Ansiães. "Aqui já ninguém liga nenhuma à linha, a gente quer a barragem para que haja regadio para as oliveiras. Já pouca gente andava de comboio". Esses, os poucos, agoram andam de táxi, pago por uma companhia de caminhos de ferro.
Larguei a Linha do Tua nas Termas de São Lourenço, outro posto avançado do recolhimento e da tranquilidade. Como já nem o comboio ali pára e os homens se desinteressaram pelas águas sulfúricas que trataram milhares durante anos, São Lourenço é mais um hino ao abandono, especialmente em Janeiro, quando qualquer um pode abrir a porta maciça de madeira e aceder ao tanque maravilhoso. No Verão, ainda se alugam quartos e a junta de freguesia de Pombal cobra dois euros e meio para quem quiser ali tomar banho. No Inverno, São Lourenço está lá para quem sabe, para os nostálgicos e aventureiros.
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À medida que os meus ténis escorregavam nas vigas de madeira geladas, fixei o olhar numa cascata que rompia da montanha do outro lado do rio. As escolas deveriam trazer ali os alunos antes que o cenário acabe. Por mim, cumpri o que prometera a mim próprio, ver a Linha de Caminho de Ferro do Tua e a sua paisagem mas sem escafandro.

A PÉ, NO CALOR (CLICAR PARA LER NO SITE DO CAFÉ PORTUGAL)

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Lembro-me como se fosse hoje. Foi há dois anos. Estava a atravessar o norte do Alentejo por entre povoações desoladas e rectas intermináveis. Nem sequer estavamos no pino do Verão como agora. Corria o mês de Junho. Junto a uma esplanada no centro de Fronteira, distrito de Portalegre, um homem virou-se para mim e perguntou: “Você não é aquele desgraçado que andava ontem a caminhar perto de Avis com este calor?” Não, não era eu. Tinha vindo por Estremoz e Sousel. Mas, disse para comigo, bem que até podia ter sido.
Nesse mesmo dia, num assomo de teimosia, depois de almoçar em casa de pessoas amigas em Fronteira, deixei o arrazoado de casas baixas a dormitar à hora da sesta, do sono, à hora em que nem os animais ousam largar a sombra para me aventurar em direcção a Cabeço de Vide. Para lá de uns pouco eucaliptos, não havia sombras. A dado momento, parou uma viatura com uma família lá dentro: “Olá, não quer boleia?” Que não, que precisava fazer aquilo a pé. Aquilo era uma recta interminável de asfalto quente que só acaba quando, à esquerda, se avista Cabeço de Vide num alto.
Perto de Cabeço de Vide, um grupo de homens asfaltava à estrada. Tudo ali era vapor quente a trepar narinas a dentro, alcatrão a derreter. Os operários ficaram a olhar para mim de boca aberta. Eles, sim, eram obrigados a estar ali. O que motivaria um indíviduo a meter-se à estrada naquelas condições? Até que um gritou: “Homem, saia daí que ainda queima os ténis, venha por aqui”.
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Em dias de canícula, todos os objectivos que tracei para o Portugal a Pé- redescobrir o país, as pessoas, a cultura, o património- se confontam com a dura realidade da caminhada: O asfalto aquece, o sol não dá tréguas e empapa de suor a t-shirt, a água passa a ser o bem essencial e o som de água a correr num qualquer fontanário junto à estrada soa à melhor das sinfonias.
Recentemente, larguei a zona da Régua que devido a uma sequência de dias com 37, 38 graus se transformara num poço sem ventilação. Nem a presença do Douro refrescava aquelas ruas absortas num espesso e pesado manto de calor. Os habitantes moviam-se pela Rua dos Camilos de rostos cozidos e lentidão nas pernas. Viajantes saíam das carruagens de janelas abertas da linha do Douro como se acabassem de deixar um sauna.
À medida que subia a EN222 em direcção a Resende, a perspectiva sobre a Régua ía melhorando, as colinas, os socalcos, as vinhas convidavam à contemplação mas os pés pediam-me que avançasse. Encontrei uma pequena fonte com água onde um camionista, que me olhou de viés, se abastecia. Aproveitei para seguir mas acabei derreado num cruzamento precisamente no Café Cruzamento, em São Gião, a escutar as habituais mas fascinantes histórias locais misturadas com uma resenha das novelas do dia anterior. Ao fim de uma hora, descobri que tinha acabado de beber ali dois litros de água.
A pior caminhada com calor foi na segunda semana de Julho de 2008. Em Gavião, uma brasa seca e calcinante convidava toda a gente a fugir para a Praia do Alamal, no Tejo. Atravessei o rio, alcancei Belver mas acabei em Mação derreado, num dia em que os termómetros marcavam 39 graus.
Nem tudo é mau com calor, no entanto. Uns dias mais tarde, desci a Serra de Alvelos em direcção a Oleiros. Uma ou outra camioneta carregada de madeira descia a inclinacao de dez graus da estrada deserta. Os motoristas lancavam-me olhares de espanto. Parei junto a uma fonte. Aquela hora, umas 14h00, já tinha bebido três litros de água mas precisava de mais para me hidratar e para me molhar. Ali a vista alcancava a Serra do Muradal, a Serra do Acor, a Gardunha, o perfil mais imponente da Serra da Estrela ao longe e, esturricando na planicie, uma mancha branca de prédios a uns 40 quilómetros: Castelo Branco.
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Desci até ao vale de campos de milho e casas de xisto da aldeia de Isna na hora do calor mais intenso. Atravessei carroças de madeira, palha para o gado, um fontanário. Um homem a carregar areia para a construçao de uma moradia indicou-me o Isna Sport Clube Alvelos. Adelino, o barmen e animador das instalacoes, 30 anos de Cometna, na Amadora, recebeu-me de bracos abertos. Ali, a hospitalidade do povo serrano que nas invasões napoleonicas se escondeu na montanha e escondeu o milho, mede-se em minis de cerveja. Cada homem que entrava fazia a mesma pergunta: "E este amigo é quem? Dá-lhe uma mini que pago eu". Acabei com umas 12 minis à frente que tentei pagar ou oferecer. "Aqui você não paga nada, quem é de fora não paga". Até que alguém ganhou coragem e perguntou: "Era você a subir a Serra? Tive pena de si, até lhe queria dar boleia. Está muito calor..."

04/08/10

ÚLTIMA CRÓNICA (CLICAR PARA LER NO CAFÉ PORTUGAL)

Quando parti de Sagres no já longínquo mês de Fevereiro de 2008 não tinha comigo a total percepção do que um ser de mochila às costas pode representar por entre as vielas, ruelas, caminhos e estradas secundárias do país. Hoje, a percorrer a minha última província, o Minho, sei que cada aldeia, cada vila, cada estrada, cada dia pode encerrar uma surpresa. A forma como a presença é recebida depende de variáveis tão díspares quanto o clima, a taxa de desemprego, a insegurança, o isolamento ou não, a geografia e...a disposição das pessoas.
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Numa tarde gélida de Fevereiro, em Lagoa, Macedo de Cavaleiros, um velho a aquecer-se junto a uma salamandra de um café lançou-me um olhar hostil, ainda eu não abrira a boca: “Você anda a vender alguma coisa? Não quero nada” Em Vila Meã, Penafiel, dirigi-me de mapa desdobrado a um cidadão para pedir uma informação. “Não quero, não quero nada”, respondeu.
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Em mais que uma ocasião, passei por indivíduo que anda há procura de trabalho. “Andas a procurar trabalho, andas?”, perguntou um homem à saída de Vila Flor, a inspeccionar oliveiras com um amigo. Mais adiante, em Junqueira, já perto de Alfândega da Fé, três homens especaram mal me viram aparecer a uns 500 metros. O mais velho meteu conversa. “Já cada tive um como tu a trabalhar comigo. Era de Lisboa, era arrumador. Era sério, trabalhador...um dia chateamo-nos por causa do futebol, vê lá. O gajo era do Benfica, eu sou do Porto...”
Na zona de Santa Comba Dão, em meados de Março de 2009, passei mais de uma vez por peregrino: “Vai para Fátima, descanse aqui um bocadinho...” Em Rio de Onor, Bragança, passei por passador de droga. Estava a subir vindo da aldeia luso-espanhola quando ouvi: “Deves levar aí muita drogazinha, deves...com o que levas aí ficas rico”. Era um aldeão, de machado e serra comprida na mão. Nesse dia resolvi indignar-me e fui falar com o homem. Pediu desculpa, que tinha a mulher doente e alguém lhe tinha derrubado o muro na noite anterior e que eu não imaginava a malandragem que anda por aí. Os mais desconfiados usam quase sempre a mesma fórmula: nos tempos que correm não se pode confiar em ninguém.
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Coincidência ou não, os mais desconfiados são quase sempre os mais amedrontados. Uma manhã de sol glorioso vinha a descer da Guarda pela estrada antiga que leva a Celorico da Beira. Estava a fotografar uma moradia de cores garridas com uma bandeira portuguesa quando ouvi, vindo do outro lado da estrada: “Aquele não está a fazer coisa boa”. Virei-me, vi dois homens e uma mulher num viveiro e venda de plantas à beira da estrada. “O quê?”, perguntei. “Nada, nada, estamos aqui a falar de plantas...”
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No planalto desértico de Miranda, decidi percorrer a estrada que partindo da cidade segue os caprichos da linha fronteiriça. Por momentos, desejei estar a fazer Portugal e Espanha a pé. Metia por Alcañices e dali raia acima em vez de contornar pacientemente uma fronteira que já nem faz sentido. Tinha acabado de passar São Martinho de Angueira e dirigia-me para Avelanoso. Ali o asfalto está aí a 90 por cento por nossa conta. Desconfio que é preciso muito azar para alguém ser atropelado num local desolado como aquele.
Ía por ali a assobiar e satisfeito com as entrevistas que fizera em Constantim a um construtor de gaitas de foles e ao último alfaiate de capas de honra mirandesas quando vi parar uma vitura da GNR. Que não me assustasse, que era pura rotina, tinham recebido um telefonema, que andava por ali um estranho de mochila às costas. Para facilitar as coisas, o fabricante de gaitas que entrevistara em Constantim era colega deles, guarda em Miranda. Apontaram o nome do pai e da mãe, a morada e lá segui.
Isto quanto à desconfiança. Tenho mais histórias mas prefiro quedar-me por aqui. É muito mais bonita a hospitalidade. Os dedos das mãos não chegam para contar as vezes em que fui mais que bem recebido.
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Quando dois canais de televisão se interessaram pela minha viagem, então, chegou a ser embaraçante. “É ele, é”, disse a dona de um restaurante em Paradela, Montalegre, alto e bom som, é ele. Marido, anda cá ver o senhor que anda a dar a volta a Portugal a pé. Não é você? Não acreditas, não venhas...É o senhor, apareceu na televisão ao pé de um burro, não foi, com a serra por trás. Eu é que não me metia numa dessas... Depois mete as fotos na internet...é ele!” Em Cabeceiras de Basto, foi a vez de um barbeiro, vizinho da lavandaria onde fui colocar roupa a lavar. “E que tenha uma boa viagem. Volte mais vezes a Cabeceiras!”
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24/07/10

CRÓNICA PUBLICADA NO CAFÉ PORTUGAL (CLICAR PARA LER NO SITE)

 
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Osvaldinho, 65 anos, aliás Firmino Baleizão da Graça Sardinha, lenda viva do Vitória de Guimarães, desejou-me boa viagem. À nossa volta, pelas paredes da pastelaria de esquina que mantem a um passo do Estádio Afonso Henriques e a outro do centro histórico, há fotos do passado glorioso do grande lateral esquerdo da época de 60 e 70. Osvaldinho ao lado dos seus colegas de selecção em meados dos anos 70, Osvaldinho a discutir uma bola com um avançado do Sporting, Osvaldinho a levar a camisola do Vitória a todo o lado. Até a máquina de tabaco está recheada desses momentos de glória, uns a preto e branco, outros a cores.
Durante alguns dias, passava sempre à hora do pequeno almoço pela pastelaria de Osvaldinho, fascinado com as fotos e toda a história emanada daqueles retratos. O centro histórico oferecia-me a História portuguesa, a mim e a dezenas de turistas afogueados, de máquina fotográfica ao tiracolo, garrafa de água na mochila, mapa na mão, à procura de vestígios do nascimento de uma nação. Ali, Osvaldinho oferecia toda uma outra, interligada, uma vez que o Vitória é um símbolo vivo da cidade onde Portugal nasceu e não há recanto onde não sejamos confrontados com o emblema do clube.
“Já vais?”, perguntou Osvaldinho. Estivemos uma meia hora, 45 minutos a recordar os bons velhos tempos, a falar de treinadores de futebol que o marcaram, de Mário Wilson e Pedroto a Fernando Caiado. Recordámos o dia dos anos 70 em que ofereceu quase mil contos de receita do jogo de homenagem à escola de crianças inadaptadas da cidade. “Nasci muito pobre”, explicou-me o alentejano de Beja, “jogava descalço, sei o que são dificuldades”.

BARQUEIROS

 
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Antes de deixar Guimarães, fui ainda a São Torcato, onde por estes dias a população não quer que o padre local saia e em cujo santuário pude dar largas à minha coscuvilhice e espreitar o corpo do santo. Achei por bem deixar o mausoléu sossegado e entregue a quem rezava por perto e espreitar no exterior os preparativos do festival de folclore a realizar ali naquele dia.

A CAMINHO DE APÚLIA POR VILAR DE FIGOS

 
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Já na Nacional 206, senti que não deixava apenas os santos, os santuários, a Batalha de São Mamede, as marcas inconfundíveis da História de Portugal cravadas em cada empedrado do centro histórico para trás. Transportava comigo as memórias do Osvaldinho e um pedaço da história do Vitória, o único clube em cujo estádio as bancadas refletem a imagem de D.Afonso Henriques. Alguém mete um golo e a sombra duradoura e omnipotente do fundador da nação paira sobre a baliza, os jogadores, a mole humana de “conquistadores”.
Ao contrário das muralhas e labirintos arquitectónicos de Guimarães, a EN 206 é um hino à história contemporânea e a um dos seus episódios nortenhos, a industrialização. Da estrada pude ver, por entre janelas abertas, mulheres debruçadas sobre as máquinas como certamente o farão há anos. A mancha urbana que une a cidade a Famalicão vai mudando de nome, numa espécie de recta interminável, de fábricas, moradias, prédios, placas publicitárias, camiões, motorizadas: Ronfe, Vermil, Joane, Pousada de Saramagos, Vermoim, Requião. Por vezes, as placas jazem encobertas por vegetação variada, desde simples silvas a fetos ou vinhas. Em alguns casos, estas abraçam os rails e estendem a sua presença à berma ou aos passeios das povoações, como que a dizer: “queres caminhar, vais para a estrada”.
Foi com alívio e alegria que celebrei a aparição, a norte de Famalicão e já no concelho de Barcelos, dos campos de milho, o milho alto e ondulante de Julho. Batido pelo vento, todo aquele mar verde oscila ao meu lado. Escolhi uma estrada bastante secundária, muito secundarizada mesmo, para atingir a Apúlia, a praia dos sargaços e ganhei a aposta. Em Vilar de Figos, de um pequeno alto, pude ver o mar pela primeira vez. Em Cristelo e depois em Barqueiros, vi a minha insistência premiada com os campos de milho mais vastos e omnipresentes da caminhada. Uma criança e um idoso ficaram a olhar-me de boca aberta ao ver-me tirar fotografias insistentes dos campos à luz do fim da tarde. A rapariga parou por momentos de brincar e chamou o avô. Vi os dois vultos esfumarem-se ao longe na minha pequena subida para Barqueiros.
A Apúlia só apareceu depois de uma via rápida que leva a diversas auto-estradas. Vendedores de melão discutiam o preço com um grupo de turistas, um dos quais me pareceu ter bebido demasiado durante a tarde, debruçado sobre a berma, líquido vermelho a escorrer-lhe das beiças.
Como todas as povoações do litoral, a Apúlia prometia nunca mais acabar, até que avistei a capela da Senhora da Guia em forma de proa, depois as barracas de riscas azuis e brancas, espreitei o areal e pude confirmar que sim, aquilo aos pés dos últimos banhistas eram algas, sargaço. Os sargaceiros, esses, só em livro, postal ou na próxima actuação do GSCPA, Grupo dos Sargaceiros da Casa do Povo da Apúlia. Estava finalmente no mar, o mar batido a vento do minho.

A CAMINHO DE APÚLIA

 
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FAMALICÃO-APÚLIA

 
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LOURO, FAMALICÃO

 
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FAMALICÃO

 
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EN 206 A CAMINHO DE FAMALICÃO

 
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EN 206

 
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NA EN 206 ENTRE GUIMNARÃES E FAMALICÃO

 
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GUIMARÃES

 
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