DIÁRIO DE VIAGEM DO JORNALISTA NUNO FERREIRA (EX-EXPRESSO, EX-PÚBLICO) QUE ATRAVESSOU PORTUGAL A PÉ ENTRE FEVEREIRO DE 2008 E NOVEMBRO DE 2010. O BLOG INCLUI TODAS AS CRÓNICAS PUBLICADAS NA REVISTA "ÚNICA" EM 2008, BEM COMO AS QUE SÃO PUBLICADAS SEMANALMENTE NO SITE CAFÉ PORTUGAL. (Travel diaries of Nuno Ferreira, a portuguese journalist who crossed Portugal on foot from February 2008 to November 2010. contact: nunoferreira62@gmail.com ou nunocountry@gmail.com

10/06/10

CRÓNICA PUBLICADA NO CAFÉ PORTUGAL (CLICAR PARA LER NO SITE)

Não sei precisar exactamente quanto tempo caminhei na raia, a percorrer com algum preciosismo as curvas e incidências da fronteira entre Espanha e Portugal. Em determinadas zonas, é o nosso país que entra por Espanha, autêntico dedo espetado, como em Tourém, Montalegre. Noutras, como em Moimenta da Raia, concelho de Vinhais, Espanha e Portugal confundem-se. É possível, caminhar sempre em Portugal com os olhos em território espanhol. Nessas zonas, falar com alguém com mais de 40 anos, é entabular conversa com um ex-contrabandista, um filho de um ex-contrabandista ou neto de…
Vilar de Perdizes, por exemplo, vivia de noite. "Às duas, três da manhã, havia um movimento constante. As pessoas estavam aqui à espera de luz verde para avançarem. Fazia-se contrabando de tudo, bacalhau, azeite, alhos, chocolate. Também havia o contrabando de sobrevivência que era feito de dia mas o grande contrabando era feito à noite".
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Mais tarde, os burros foram "despedidos" (cada pessoa tinha três ou quatro burros) e o contrabando passou a fazer-se em carrinhas VW e em camiões.
Vilar de Perdizes era uma aldeia "rica" em relação às outras: "Todas as crianças tinham dinheiro. Apareciam ensonadas na sala de aula, mais tarde percebi que tinham andado no contrabando de noite. As pessoas aqui, devido ao contrabando, ganharam um estatuto diferente do resto das aldeias do Barroso".
Enquanto fui caminhando junto à raia, fosse no Parque de Montesinho, fosse no concelho de Chaves ou no de Montalegre, umas vezes era eu que procurava a memória do contrabando, outras vezes era ela que vinha ao meu encontro. Numa curva, em Águas Frias, Chaves, encontrei António Lopes, à espera a carrinha com mercearia e com tempo para recordar os velhos tempos: “E quando fui buscar a Espanha um fato de mulher para casamento para entregar a Mirandela?” Do lado de cá da serra, uma samarra a tapar o saco, um guarda agarrou-o. “Botou-me a mão, fugi, ele a gritar “alto aí, alto aí e a disparar “tau”, “tau”, tau”.
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António Lopes

António fugiu até a uma ribeira onde a única hipótese foi meter-se de água pelo pescoço. O saco levantou e boiou, enquanto António Lopes puxava as águas com as mãos. O guarda bem queria que parasse. “Bota-te à água que eu também me mandei!”, gritava António. No outro dia pela noite, sempre a caminhar, já estava em Mirandela.
Hoje, multiplicam-se as “rotas de contrabando” organizadas pelas autarquias mas os ex-contrabandistas gostam de dizer que os seus trilhos eram muito mais duros e difíceis. “Isto que fazem agora não é nada”, disse-me o Ti Fernando de Casares (Vinhais), 20 anos de contrabando. “Passavamos por carreiros com bicicletas às costas, potes de aguardente, barras de cobre ou burros onde hoje ninguém vai. Muita gente não acredita o que passávamos ali”.
A história de vida do ex-contrabandista de Tourém (Montalegre) Bento Barroso Grilo, 88 anos, dava um livro, dos tempos de pobreza extrema e sofrimento até ao desenvolvimento de uma rede organizada de contrabando. Foi por ali que passaram as primeiras máquinas de jogo do Casino da Póvoa, em caixas pesando 200 quilos vindas dos Estados Unidos para Barcelona e dali para Ourense. “Fomos buscar as máquinas com um tractor”, contou Bento Barroso, que é do tempo de atravessar com gado de Espanha a Tourém, de Tourém à Venda Nova e dali pela Serra da Cabreira até Fafe.
“Eu tinha cavalo mas ía quase sempre a pé porque havia sempre pessoas velhas e descalças a pé. Uh, o contrabando é uma longa história…”
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Bento Barroso Grilo

04/06/10

Agradecimentos em Montalegre a toda a equipa do Eco-Museu, à disponibilidade do município para me alojar, à TV Barroso e à Associação Social e Cultural de Paredes de Rio.

03/06/10

EM CABECEIRAS DE BASTO (CLICAR PARA ACEDER AO MEU GRUPO NO FACEBOOK)

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A transição faz-se em poucos quilómetros. De repente, o território pedregoso e coberto a urze desaparece e vou descendo por curvas apertadas entre vinhas, campos com estrume prontos a semear, gente de chapéus de palha, motorizadas ruidosas. São as Terras de Basto e o Minho a chegar, embora a minha intenção seja seguir para o Alvão através de Mondim de Basto e daí para o Marão.
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ASNELA (CABECEIRAS DE BASTO)

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VILELA-ASNELA (CABECEIRAS DE BASTO)

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RIBEIRA DE CAVEZ JUNTO À PONTE DE VILELA (CABECEIRAS DE BASTO)

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Desci até Vilela para ver o Nariz do Mundo. "A melhor vista do Nariz do Mundo é da ponte da Vilela", explicou-me um distribuidor de café que encontrei em Moscoso, se descer por aqui não vai ver nada". Fiz exactamente como me recomendou: Desci por um caminho que passa em Meijoadela e que permitiu ir-me aproximando devagarinho do desfiladeiro. Lá cheguei ao fundo, ao vale onde se encaixa Vilela, a verde, um pouco acima da ribeira de Cavez. Entrei num café. "A ponte de Vilela, o melhor sítio para ver o Nariz do Mundo? Olhem, disseram a este senhor que a ponte é o melhor sítio para ver o Nariz do Mundo. Não...para ver o Nariz do Mundo mesmo como devia ser..." Seguiram-se considerações pouco abonatórias à beleza e grandeza do nariz mais famoso daquelas bandas.
Desci até à ponte, vi o que tinha a ver do desfiladeiro e enfiei-me nas águas e quedas de água da ribeira de Cavez.

DESFILADEIRO DO NARIZ DO MUNDO VISTO DE VILELA

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Aventurei-me pelos campos, muros de pedra de um lado e do outro e uma pequena “bússola” a guiar-me: Uma pequena placa a indicar Magusteiro. Grilos, muitos grilos, zumbiam de um e do outro lado da pequena tira de asfalto. Nesse dia deixara para trás o lençol azul da albufeira da Venda Nova, espreitara ruínas do que já foram casas de mineiros na Borralha, aventurara-me em direcção a oeste e aos pastos da Serra da Cabreira mas invertera a rota para Salto e daí para baixo, para as Terras de Basto, onde Trás-os-Montes e o Minho confluem e se confundem.
A luz do fim de tarde começava a descer oblíqua sobre as pequenas casas de pedra à minha frente. Dei dois passos em direcção a um tanque com água e avistei três idosos. Alguém me tinha convencido a caminhar em direcção à aldeia de Moscoso e desfiladeiro do Nariz do Mundo. Perguntei o que deveria fazer para chegar a Moscoso. Aquele que parecia ter sido até aí um fim de dia pacífico e sem sobressaltos em Magusteiro transformou-se num debate. “Ouça bem o que lhe vou dizer”, disse um homem. Ao longo da minha já longa viagem por Portugal a pé, sempre que ouço este “ouça bem” sei que vem aí uma indicação longa, complicada e que invariavelmente acaba comigo, mais tarde, as pernas enterradas em urze, giesta, junco, tentando ultrapassar um ribeiro.
O homem explicou que eu simplesmente tinha de alcançar a capela-há sempre uma capela por estes lados- seguir sempre pelo caminho do lado esquerdo e evitar a floresta. A floresta é um bosque surreal de cedros que alguém introduziu na Serra da Cabreira e que surge do nada entre os pastos de montanha.
A mulher a seu lado era totalmente contra a indicação do homem e mostrou-se mesmo indignada: “Ele vai perder-se, depois vais lá tu buscá-lo?” A disputa entre o melhor caminho a seguir tornou-se tempestuosa. Decidi agradecer e recuar novamente em direcção à estrada. Descobri Moscoso no planalto, ao fim de um infindável trilho por entre as coníferas. Dois seres de rostos secos e tisnados, mal protegidos com chapéus de palha guiando cabras por entre pedregulhos deram-me as boas vindas.
“Ah você quer ver o Nariz do Mundo? Eu vou-lhe explicar como você vai fazer”, explicou-me mais tarde um diligente distribuidor de café. “Sou de Guimarães mas ando aqui há 20 anos. Um gajo acaba por ser um bocadinho paleontólogo e antropólogo. Ora bem, por Moscoso você vai descer mas não vai ver nada...A melhor vista do Nariz do Mundo é na ponte de Vilela...”
Passei o que restava de uma calçada romana e aldeias semi-desertas com nomes como Uz ou Meijoadela. Por ali, é mais fácil encontrar vacas e os seus cornos altivos a pastar junto à estrada do que seres humanos. A dado momento, provoquei um incidente diplomático. Tanto quis fotografar dois cavalos que os assustei. Estes fugiram para os pastos das vacas que não gostaram nada de ver o seu espaço invadido e correram com os cavalos dali sem piedade.
O desfiladeiro do Nariz do Mundo foi-se erguendo à minha frente, uma parede rochosa imponente que dominou a minha descida durante bastante tempo. Vilela surgiu de repente. Duas raparigas com material escolar ficaram a observar-me inquietas: “Aqui, aqui é Vilela!” Entrei num café, sorriso nos lábios, pronto a observar o Nariz do Mundo. “Disseram-lhe que era aqui a melhor vista do Nariz do Mundo? Não...Oh Zé, disseram a este senhor que aqui na ponte de Vilela era a melhor vista do Nariz do Mundo”. O tal de Zé largou a motorizada e entrou no café para corroborar: “Não, aqui já vê de longe...”
Resultado: Em pleno desfiladeiro do Nariz do Mundo, enfiei as frustrações e as indicações e tudo o resto dentro das pequenas quedas de água da Ribeira de Cavez. Mas sim, lá ao fundo, lá estava um rochedo que, com alguma boa vontade, podemos ver como um nariz, um nariz de pedra arredondado e só, perdido na serra.

VILELA (CABECEIRAS DE BASTO)

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FUTEBOL COM CENÁRIO (VILELA)

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A CAMINHO DO DESFILADEIRO DO NARIZ DO MUNDO POR VILELA (CABECEIRAS DE BASTO)

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MEIJOADELA COM NARIZ DO MUNDO AO FUNDO

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Os telhados de Meijoadela com o perfil do desfiladeiro e vale do Nariz do Mundo ao fundo

CONFLITO NA SERRA


Foi depois de ter fotografado os cavalos. Por qualquer razão, resolveram deslocar-se para o lado onde as vacas estavam a pastar. Houve uma, sobretudo, que não gostou de ver as pastagens invadidas pelos dois cavalos.

A CAMINHO DE MEIJOADELA (CABECEIRAS DE BASTO)

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ENTRE UZ E MEIJOADELA (CABECEIRAS DE BASTO)

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MOSCOSO (CABECEIRAS DE BASTO)

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SALTO-CABECEIRAS DE BASTO

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SALTO-CABECEIRAS DE BASTO

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SALTO (MONTALEGRE)

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SALTO (MONTALEGRE)

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BORRALHA AO LONGE VISTA DA ESTRADA PARA PAREDES (MONTALEGRE)

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