DIÁRIO DE VIAGEM DO JORNALISTA NUNO FERREIRA (EX-EXPRESSO, EX-PÚBLICO) QUE ATRAVESSOU PORTUGAL A PÉ ENTRE FEVEREIRO DE 2008 E NOVEMBRO DE 2010. O BLOG INCLUI TODAS AS CRÓNICAS PUBLICADAS NA REVISTA "ÚNICA" EM 2008, BEM COMO AS QUE SÃO PUBLICADAS SEMANALMENTE NO SITE CAFÉ PORTUGAL. (Travel diaries of Nuno Ferreira, a portuguese journalist who crossed Portugal on foot from February 2008 to November 2010. contact: nunoferreira62@gmail.com ou nunocountry@gmail.com
17/06/09
JOAQUIM RODRIGUES, SÃO JOÃO DE TAROUCA (CRÓNICA PUBLICADA NO CORREIO DA MANHÃ)
“Nesta freguesia toda a gente tem televisão e acesso à internet na Junta de Freguesia”, explica Joaquim Rodrigues, 60 anos, autarca socialista de São João de Tarouca, um vale verdejante encaixado entre arvoredo, famoso pelo seu mosteiro. “O problema é que as pessoas ligam a televisão, sentam-se à espera de ver os candidatos debaterem questões europeias e vêem-nos a trocar acusações oportunistas sobre a política nacional. É uma estupidez, uma tristeza”, diz Joaquim, ex-auxiliar na Escola António Arroio, em Lisboa. “Os culpados de as pessoas se absterem nestas eleições são os candidatos porque em vez de fazerem uma campanha pedagógica sobre o Parlamento Europeu andam a acusar-se mutuamente sobre temas que não têm nada a ver com a Europa”, defende. “Imagine se na campanha das legislativas só se falasse em questões europeias…é um absurdo”. Joaquim Rodrigues, 31 anos de Lisboa e há 12 como autarca em São João de Tarouca, poeta popular e amante da natureza, tem-se esforçado para modernizar a população. Hoje, a vila tem espaço internet, biblioteca, aulas de ginástica, loja de artesanato criada pela junta, tudo conseguido com apoios comunitários. “Aqui as pessoas estão informadas sobre tudo e ao mesmo tempo vivem no meio da natureza. Às vezes, comunico no Messenger com amigos meus em Lisboa e digo-lhes que estou a respirar ar puro, a ouvir as águas do Rio Varosa e os pássaros nocturnos. Em São João de Tarouca, somos senhores do tempo…”
UM CHAMAMENTO DIVINO
“Foi um chamamento divino”, explica António Vieira Caetano, 72 anos, guardião do Mosteiro de São João de Tarouca. Durante anos, trabalhou em Lisboa em lojas de vestuário como a alfaiataria Rosa E Teixeira, na Avenida da Liberdade. Um dia regressou à terra natal e tratou de cuidar do grande monumento da sua terra. “Vim para aqui em 1977, estava o Mosteiro com as portas abertas, sem telhado, os azulejos descolados das paredes, esculturas em terracota desfeitas. Decidi ficar por aqui e ajudar o mais possível na preservação do monumento nacional”, diz.
As histórias contadas por António Caetano são mais que muitas: “Uma vez um ex-presidente da Junta de Freguesia apontou-me uma pistola porque queria construir habitação junto ao mosteiro e eu opus-me. Já faleceu, Deus o tenha em descanso”. As dificuldades de preservação do monumento foram muitas. “Cheguei a colocar a rapaziada de ocupação dos tempos livres a cortar paus para escorar as talhas”.
Foi durante o governo socialista de António Guterres que o Mosteiro sofreu as maiores obras de restauração. “O Guterres veio cá , eu estava ali ao fundo e ele perguntou: Onde está o senhor Caetano, esse herói, que eu quero dar-lhe um abraço”.
Caetano orgulha-se de ter recebido uma medalha de ouro de mérito da Assembleia Municipal de Tarouca e de ter sido entrevistado na SIC. “A Júlia Pinheiro só me disse: Você venceu a guerra, a pistola transformou-se em ouro”.
Neste momento, o Mosteiro necessita da restauração do órgão de tubos. “Já cá vieram técnicos europeus, falta a contribuição do Estado português”. Pode ser que algum deputado eleito hoje ajude, em Estrasburgo, a desbloquear mais essa batalha de Caetano.
16/06/09
"QUER COMPRAR A MINHA BURRA?"
Os aldeões do interior de Portugal competem no repetitivismo minimalista com os políticos portugueses em campanha. Enquanto estes repetem até à exaustão slogans e acusações sobre a política nacional quando se candidatam a um lugar no Parlamento Europeu, os portugueses que ainda trabalham o campo afirmam quase sempre: "Disso eu não sei..." Depois, regressam à plantação de milho e à criação de gado com a mesma naturalidade com que muitos deputados deixam os restaurantes junto a São Bento, em Lisboa e se voltam a sentar na cadeira atribuída na Assembleia da República.
De cada vez que a enxada sobrevivente de António Coelho Rodrigues, 83 anos, de Vale Abrigoso, rasgar o solo pobre da região de Lamego ou sempre que António tiver de afastar as suas cabras das da vizinha que as traz na estrada vinda de Bigorne, há-de alguém estar a discursar em frente a bandeiras e populares saídos de autocarros. "O que eu faço mesmo é vender gado. Vou às feiras de gado daqui. Nunca saí para fora, aqui há ar puro e eu não gosto de cidade. Quer comprar a minha burra? Quer comprar, eu vendo".
Ali, em Vale Abrigoso, pouco mais de 150 habitantes, a indiferença é recíproca. Para a maioria dos políticos em campanha, Vale Abrigoso não existe e para os aldeões, a política europeia também não. Durão Barroso apelou ao voto no dia sete? “Dia sete vou estar numa chega de bois, quer vir?”, pergunta António Coelho Rodrigues.
"É COMPLICADO VIVER ALI" (CRÓNICA PUBLICADA NO CORREIO DA MANHÃ)
“As eleições autárquicas motivam as pessoas a votar. Mexem com os problemas reais de cada habitante. Estas não. Ainda ontem me perguntaram para que servem as eleições europeias. Ninguém se sente motivado”, explica Paulo Castro, 34 anos, presidente da Junta de Freguesia de Gosende, uma freguesia perdida na Serra de Montemuro, onde não vivem mais de 500 pessoas.
“É complicado viver ali”, diz Paulo, que há muitos anos trabalha e vive em Castro Daire para se poder sustentar. Há dois meses abriu um café e pastelaria na vila. “Vou a Gosende aos fins de semana ou quando o secretário da junta ou o tesoureiro me chamam”. De Inverno, tem de colocar as correntes nos pneus do carro por causa do gelo e da neve. “A Serra de Montemuro não tem limpeza de neve como a Serra da Estrela”.
O turismo na freguesia resume-se a uma casa de turismo rural em Codeçal. “Gostávamos de ter pelo menos um restaurante. Entretanto fui contactado por uma pessoa que quer lançar percursos pedestres pela Serra de Montemuro. Seria muito bom que esse projecto avançasse. Temos paisagens lindíssimas ainda por explorar”.
Ainda à espera do turismo e com apenas alguma criação de gado e plantação de milho e batata, a freguesia vê muitos jovens partirem ou para a campanha das vinhas no Douro ou para a campanha da maçã na França e na Suíça. “As mulheres ficam, eles vão por temporadas”.
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