DIÁRIO DE VIAGEM DO JORNALISTA NUNO FERREIRA (EX-EXPRESSO, EX-PÚBLICO) QUE ATRAVESSOU PORTUGAL A PÉ ENTRE FEVEREIRO DE 2008 E NOVEMBRO DE 2010. O BLOG INCLUI TODAS AS CRÓNICAS PUBLICADAS NA REVISTA "ÚNICA" EM 2008, BEM COMO AS QUE SÃO PUBLICADAS SEMANALMENTE NO SITE CAFÉ PORTUGAL. (Travel diaries of Nuno Ferreira, a portuguese journalist who crossed Portugal on foot from February 2008 to November 2010. contact: nunoferreira62@gmail.com ou nunocountry@gmail.com
25/02/09
A RAPAZIADA E O CORSÁRIO
22/02/09
MONTARIA AO JAVALI EM SEIXO DA BEIRA (OLIVEIRA DO HOSPITAL) 21 DE FEVEREIRO DE 2009
Vinha a atravessar Seixo da Beira, crianças brincando ao Carnaval em mais um dia soalheiro, quando deparei com cartazes a anunciar uma montaria ao javali organizada pelo clube de caça e pesca local. Os organizadores e os donos do Restaurante Cristina, foram inexcedíveis e permitiram-me acompanhar toda a montaria do passado sábado.
Os caçadores, de todas as classes e origens, começam a chegar às 8h30, uns em carros modestos, outros em jeeps, indumentárias variadas. Às 11h00, terminadas as inscrições, os proprietários do Restaurante Cristina, começam a servir a comida e a bebida que confortará os estômagos dos caçadores até estes regressarem do mato às
16h00.
"LÁ VAI ELE!" (CRÓNICA)
Os estômagos confortados com vinho, feijão, morcela, muita carne, os caçadores partem para o terreno, nas imediações de Seixo da Beira, em cima de reboques de tractores, preparados para ocupar as posições nas portas que lhes foram destinadas na lotaria. A organização de uma montaria não é fácil. O Clube de Caça e Pesca de Seixo da Beira esperava cerca de 100 caçadores, vieram uns 85. A época da montaria ao javali está a terminar e é uma das últimas oportunidades de dar ao gatilho.
Os caçadores pertencem às profissões mais diversas. Há doutores, aldeões, comerciantes. Uns vestem a rigor, outros contentam-se com vestes mais modestas. Uns trazem caçadeiras, outros carabinas, uns transportam a arma em malas de madeira, outros em sacolas de cores camufladas. Todos respiram uma paixão viciante pela caça.
A caminho da montaria, em cima dos tractores, trocam-se os mais diversos relatos, histórias, sensações: Daquela vez que em Vila Viçosa um javali se atravessou ao caminho e levou tantas balas ou da outra em que um caçador confundiu um cão com um javali e o matou. “È da ganância…O gajo depois ofereceu dois cães ao dono da matilha mas é a mesma coisa? Algum cão sem treino substitui aqueles?”
Fala-se dos animais e das ocasiões de caça com a naturalidade e paixão com que um futebolista recorda o seu último drible ou golo: “Car…, eu ali parado e aparece-me o veado a saltitar a uns cinco metros. Ficou a olhar para mim de olhos arregalados uns segundos. Foi logo “tau”…mais um segundo e deixava-o fugir”.
Descidos dos tractores, os homens no grupo – há apenas duas caçadoras – inspeccionam o terreno como farejadores profissionais. “’Tá a ver aqui o campo todo revolvido? Os javalis andaram aqui esta noite. Esta porta vai ser boa, eles hão-de de estar por aqui”.
Três caçadores partilham a mesma porta mas escolhem posições diferentes e combinam estratégias: “Eu vou ficar aqui, vai ficar aí? Ok, eu só disparo naquela e naquela direcção”. As encostas e vales circundantes enchem-se de caçadores, cada um na sua posição. A regra é o silêncio até ser largado o primeiro foguete e a montaria começar.
O tempo de espera pelos primeiros latidos dos cães e gritos dos monteiros é grande. As matilhas começam a percorrer as pedrenias e o mato lá longe, na extremidade direita do horizonte. Quando tudo acontece, quando tudo tem irremediavelmente de acontecer, é muito rápido. Um javali aparece, subitamente, a fugir pela encosta à minha frente. Um caçador, postado em cima de um penedo, esvazia os primeiros cartuchos. O animal desce já aos ziguezagues sob um tiroteio infernal, até cair junto a um ribeiro idílico. “Tanta bala para matar um porco tão pequeno”, desabafa um caçador.
A maior e mais exilarante supresa surge do mesmo topo da encosta mas a um ritmo e peso completamente diferente. É uma “navalheira” ou “navalheiro”, um animal impressionante que rasga mato como uma charrua lavra torrões secos.
Na nossa posição, é fácil vê-lo, observar a correria desfiladeiro abaixo. Os matilheiros gritam “lá vai ele, lá vai ele!” Os caçadores postados nas portas mais próximas parecem incapazes ou de o ver ou de o matar. “Deixaram escapar um animal daqueles…minha Nossa Senhora…”
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