DIÁRIO DE VIAGEM DO JORNALISTA NUNO FERREIRA (EX-EXPRESSO, EX-PÚBLICO) QUE ATRAVESSOU PORTUGAL A PÉ ENTRE FEVEREIRO DE 2008 E NOVEMBRO DE 2010. O BLOG INCLUI TODAS AS CRÓNICAS PUBLICADAS NA REVISTA "ÚNICA" EM 2008, BEM COMO AS QUE SÃO PUBLICADAS SEMANALMENTE NO SITE CAFÉ PORTUGAL. (Travel diaries of Nuno Ferreira, a portuguese journalist who crossed Portugal on foot from February 2008 to November 2010. contact: nunoferreira62@gmail.com ou nunocountry@gmail.com

22/02/09

TOCA A COMER

 
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"Então e o jornalista não come?"
 
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Já se comeu, passe-se à lotaria das portas onde vão ficar localizados os caçadores.
 
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LOTARIA DAS PORTAS

 
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MATILHA BRINQUINHO

 
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Os cães da famosa matilha Brinquinho, de Nogosela, Santa Comba Dão, à espera de entrar em acção.
 
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TERRENO "VARRIDO" POR JAVALIS NA VÉSPERA

 
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Podia ser um miliciano nos Balcãs. É um caçador da zona da Bairrada.

O TI ZÉ VAI FUGIR DA "GUERRA"

 
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"Então Ti Zé, não ficar para ver a montaria?"
"Eu? Eu sou velho mas não quero morrer já!"

A PORTA

 
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Os caçadores inspeccionam as melhores posições na porta que lhes foi distribuída.

"LÁ VAI ELE!" (CRÓNICA)

 
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Os estômagos confortados com vinho, feijão, morcela, muita carne, os caçadores partem para o terreno, nas imediações de Seixo da Beira, em cima de reboques de tractores, preparados para ocupar as posições nas portas que lhes foram destinadas na lotaria. A organização de uma montaria não é fácil. O Clube de Caça e Pesca de Seixo da Beira esperava cerca de 100 caçadores, vieram uns 85. A época da montaria ao javali está a terminar e é uma das últimas oportunidades de dar ao gatilho.
Os caçadores pertencem às profissões mais diversas. Há doutores, aldeões, comerciantes. Uns vestem a rigor, outros contentam-se com vestes mais modestas. Uns trazem caçadeiras, outros carabinas, uns transportam a arma em malas de madeira, outros em sacolas de cores camufladas. Todos respiram uma paixão viciante pela caça.
A caminho da montaria, em cima dos tractores, trocam-se os mais diversos relatos, histórias, sensações: Daquela vez que em Vila Viçosa um javali se atravessou ao caminho e levou tantas balas ou da outra em que um caçador confundiu um cão com um javali e o matou. “È da ganância…O gajo depois ofereceu dois cães ao dono da matilha mas é a mesma coisa? Algum cão sem treino substitui aqueles?”
Fala-se dos animais e das ocasiões de caça com a naturalidade e paixão com que um futebolista recorda o seu último drible ou golo: “Car…, eu ali parado e aparece-me o veado a saltitar a uns cinco metros. Ficou a olhar para mim de olhos arregalados uns segundos. Foi logo “tau”…mais um segundo e deixava-o fugir”.
 
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Descidos dos tractores, os homens no grupo – há apenas duas caçadoras – inspeccionam o terreno como farejadores profissionais. “’Tá a ver aqui o campo todo revolvido? Os javalis andaram aqui esta noite. Esta porta vai ser boa, eles hão-de de estar por aqui”.
Três caçadores partilham a mesma porta mas escolhem posições diferentes e combinam estratégias: “Eu vou ficar aqui, vai ficar aí? Ok, eu só disparo naquela e naquela direcção”. As encostas e vales circundantes enchem-se de caçadores, cada um na sua posição. A regra é o silêncio até ser largado o primeiro foguete e a montaria começar.

BALAS

 
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"Eles que apareçam à minha frente, encho-os de balas!"
 
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O tempo de espera pelos primeiros latidos dos cães e gritos dos monteiros é grande. As matilhas começam a percorrer as pedrenias e o mato lá longe, na extremidade direita do horizonte. Quando tudo acontece, quando tudo tem irremediavelmente de acontecer, é muito rápido. Um javali aparece, subitamente, a fugir pela encosta à minha frente. Um caçador, postado em cima de um penedo, esvazia os primeiros cartuchos. O animal desce já aos ziguezagues sob um tiroteio infernal, até cair junto a um ribeiro idílico. “Tanta bala para matar um porco tão pequeno”, desabafa um caçador.
A maior e mais exilarante supresa surge do mesmo topo da encosta mas a um ritmo e peso completamente diferente. É uma “navalheira” ou “navalheiro”, um animal impressionante que rasga mato como uma charrua lavra torrões secos.
Na nossa posição, é fácil vê-lo, observar a correria desfiladeiro abaixo. Os matilheiros gritam “lá vai ele, lá vai ele!” Os caçadores postados nas portas mais próximas parecem incapazes ou de o ver ou de o matar. “Deixaram escapar um animal daqueles…minha Nossa Senhora…”
 
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A matilha Brinquinho já esgotada depois de atravessar montes e vales, rasgando trilhos, a perseguir e a dar luta aos javalis.
 
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Prosseguem serra acima mas já não há muito mais a perseguir
 
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A RAPOSA?

 
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"'Tava ali uma raposa, fil...da p...Já que não consegui nenhum javali, ao menos uma raposa!"
 
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De vez em quando, ouvem-se mais tiros, lá para as bandas do Mondego. Mas à medida que as horas passam e o Sol vai baixando, as expectativas esgotam-se. “Ao menos, uma raposa…”, delira um. “Há para aí muito tordo”, comenta outro, vigiando os ares. Os caçadores começam a regressar mas ainda sonham com um javali. “Car…lá vou ter que ir amanhã à montaria em Castelo Branco…”
À parte uma pequena discussão entre dois caçadores que discutem a porta que ocupavam - “ali era eu que devia estar e não você”- tudo correu bem aos organizadores da montaria: “Ninguém se aleijou, isso é que é importante!”
 
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Os caçadores debatem entre si quem matou a fêmea que assistimos a descer a encosta, sob a artilharia de vários caçadores. O último a acabar com ela foi um orgulhoso caçador de Mortágua mais a sua carabina.
 
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Os caçadores preparam-se para regressar ao Restaurante Cristina para o almoço. Partilhamos a traseira de uma pick-up com dois javalis e uma cão ferido e exaurido.
 
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Seis javalis abatidos, um dos quais será leiloado.
 
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