DIÁRIO DE VIAGEM DO JORNALISTA NUNO FERREIRA (EX-EXPRESSO, EX-PÚBLICO) QUE ATRAVESSOU PORTUGAL A PÉ ENTRE FEVEREIRO DE 2008 E NOVEMBRO DE 2010. O BLOG INCLUI TODAS AS CRÓNICAS PUBLICADAS NA REVISTA "ÚNICA" EM 2008, BEM COMO AS QUE SÃO PUBLICADAS SEMANALMENTE NO SITE CAFÉ PORTUGAL. (Travel diaries of Nuno Ferreira, a portuguese journalist who crossed Portugal on foot from February 2008 to November 2010. contact: nunoferreira62@gmail.com ou nunocountry@gmail.com
18/06/09
17/06/09
A PRESERVAÇÃO DE SALZEDAS (CRÓNICA PUBLICADA NO "CORREIO DA MANHÃ")
Ao fim de 17 anos como padre na paróquia de Salzedas, António Seixeira apegou-se à preservação da Igreja Matriz, das Ruínas da Abadia Velha e luta para que alguém deite mão ao bairro judeu da povoação. “A judiaria de Salzedas é a nossa jóia da coroa e está a caír aos bocados. É uma peça única. Temos aqui um bairro judaico intacto, diferente de Belmonte. Aqui o bairro funcionava em gueto, as casas comunicavam uma com as outras. Pode-se circular por 40 habitações em circuito fechado, sem vir à rua”, explica.
“Algumas casas estão perdidas, irremediavelmente mas é possível e urgente preservar a judiaria”, afirma António Seixeira, que na véspera das eleições europeias serve de guia ao Mosteiro e Igreja Matriz e ainda tem um casamento para celebrar. “Faz-se de tudo um pouco”. Entre a visita de uma excursão e a celebração, o padre de Salzedas ainda embrulha artesanato que vende numa loja junto às ruínas da Abadia Velha. “No ano passado tivemos aqui 23 mil visitantes e este ano a tendência é para aumentar devido à divulgação na internet, no site da rede das Abadias dos Monges de Cister”. Dentro em breve, começarão as obras para a construção do núcleo museológico que possa albergar em segurança o espólio riquíssimo da instituição. “Temos duas obras de Grão Vasco, só para dar um exemplo”.
Atarefado a manter a luta da preservação do rico património de Salzedas, o padre Seixeira não teve muito tempo para dedicar à campanha das eleições europeias. “Serviu para me distrair um bocadinho…”, afirma.
FLOR ALMEIDA, UCANHA (CRÓNICA PUBLICADA NO "CORREIO DA MANHÃ")
A Dona Rosa, grande anfitriã de Ucanha, guardiã da Igreja Matriz e cicerone de uma das aldeias mais belas do país, não está. “Foi para a Serra da Estrela em passeio, hoje está quase tudo para lá”, explica uma sorridente e simpática Flor Almeida, 50 anos, uma dos onze filhos da famosa Dona Rosa. Ucanha sempre foi famosa pela Ponte Fortificada sobre o Rio Varosa, por ter sido o berço do etnólogo Leite de Vasconcelos mas o projecto “Aldeias Vinhateiras do Douro” trouxe-lhe uma vida e uma cor novas, sobretudo na área onde existiu até agora maior intervenção, a Rua Direita. A casa onde Flor vive com a Dona Rosa é uma das casas intervencionadas, com portas em verde, paredes em branco. Flor viveu muitos anos na Suíça, trabalhando na hotelaria e voltou para tomar conta da mãe. “Ucanha, se fosse na Suíça, era visitada por milhares de turistas, tinha um hotel de cinco estrelas…”, desabafa Flor. Não só a paisagem é deslumbrante, o Varosa bordejado por salgueiros e amieiros, a Serra de Santa Helena como fundo para os campos de milho, para as vinhas e os olivais, como tudo em Ucanha respira História, a nossa, a de Portugal. “Precisava de ser mais promovida no estrangeiro”, afirma Flor. Os deputados, a eleger no domingo, que promovam Ucanha, as suas Quelhas, o seu granito, as suas casas de varandas em madeira colorida. “Ai se fosse na Suíça…”
DONA ROSA (CRÓNICA PUBLICADA NO "CORREIO DA MANHÃ"
“A Torre estava abandonada e eu botei-lhe a mão”, conta agora Rosa de Jesus, 74 anos, mais conhecida por Dona Rosa, a mulher que durante mais de 20 anos cuidou da Torre Fortificada e da Igreja Matriz de Ucanha. “Tratei daquilo, fiz lá um pequeno museu com coisinhas agrícolas, fazia as limpezas e explicava as pessoas a História da Torre. Eu não sei ler mas fui aprendendo com os turistas. Para o fim parecia um papagaio, sei tudo de cor”. A Torre passou a ser a razão de viver da mãe de 11 filhos. “Era como a se a Torre fosse minha. Recebia louvores dos turistas no livro de visitas…” Há oito anos, Rosa de Jesus foi substituída pelo turismo local. “Foi como uma facada nas costas. Eu fazia aquilo por orgulho, prazer, por paixão”.
Sem entender o afastamento, Dona Rosa adoeceu. “Estive em depressão e em tratamento. Então, eu estava acostumada a estar a fazer o comer e apagar o lume para ir atender os turistas…” Sem a “sua” Torre, Rosa de Jesus continuou a tomar conta da Igreja. “A maioria das pessoas vêm aqui a Ucanha para visitar a Torre mas quando entram na Igreja ficam de boca aberta”, explica. Na verdade, o contraste entre a sobriedade granítica do exterior e a riqueza da talha dourada dos retábulos e dos caixotões pintados do tecto é enorme. “É linda, não é? Eu sonho com a Igreja…”
Agora, enquanto vai aprendendo a escrever na Junta de Freguesia, Rosa de Jesus vive de cuidar a Igreja Matriz e das recordações da Torre. De política e eleições é que Dona Rosa não quer nem saber: “Eles é que o ganham, não ligo a essas coisas”.
JOAQUIM RODRIGUES, SÃO JOÃO DE TAROUCA (CRÓNICA PUBLICADA NO CORREIO DA MANHÃ)
“Nesta freguesia toda a gente tem televisão e acesso à internet na Junta de Freguesia”, explica Joaquim Rodrigues, 60 anos, autarca socialista de São João de Tarouca, um vale verdejante encaixado entre arvoredo, famoso pelo seu mosteiro. “O problema é que as pessoas ligam a televisão, sentam-se à espera de ver os candidatos debaterem questões europeias e vêem-nos a trocar acusações oportunistas sobre a política nacional. É uma estupidez, uma tristeza”, diz Joaquim, ex-auxiliar na Escola António Arroio, em Lisboa. “Os culpados de as pessoas se absterem nestas eleições são os candidatos porque em vez de fazerem uma campanha pedagógica sobre o Parlamento Europeu andam a acusar-se mutuamente sobre temas que não têm nada a ver com a Europa”, defende. “Imagine se na campanha das legislativas só se falasse em questões europeias…é um absurdo”. Joaquim Rodrigues, 31 anos de Lisboa e há 12 como autarca em São João de Tarouca, poeta popular e amante da natureza, tem-se esforçado para modernizar a população. Hoje, a vila tem espaço internet, biblioteca, aulas de ginástica, loja de artesanato criada pela junta, tudo conseguido com apoios comunitários. “Aqui as pessoas estão informadas sobre tudo e ao mesmo tempo vivem no meio da natureza. Às vezes, comunico no Messenger com amigos meus em Lisboa e digo-lhes que estou a respirar ar puro, a ouvir as águas do Rio Varosa e os pássaros nocturnos. Em São João de Tarouca, somos senhores do tempo…”
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