DIÁRIO DE VIAGEM DO JORNALISTA NUNO FERREIRA (EX-EXPRESSO, EX-PÚBLICO) QUE ATRAVESSOU PORTUGAL A PÉ ENTRE FEVEREIRO DE 2008 E NOVEMBRO DE 2010. O BLOG INCLUI TODAS AS CRÓNICAS PUBLICADAS NA REVISTA "ÚNICA" EM 2008, BEM COMO AS QUE SÃO PUBLICADAS SEMANALMENTE NO SITE CAFÉ PORTUGAL. (Travel diaries of Nuno Ferreira, a portuguese journalist who crossed Portugal on foot from February 2008 to November 2010. contact: nunoferreira62@gmail.com ou nunocountry@gmail.com
16/09/08
ALANDROAL
Há carros de cadeias de televisão a acorrer à até agora pouco mediática Barragem de Lucefecit em busca de imagens de toneladas de carpas mortas. Não fosse a ocorrência inesperada e teria a recta cinzenta e a perder-se de vista por minha conta. "Aqui é sossegado e aqui é que eu gosto de estar", explica-me Joaquim Varandas, 49 anos, talhante e orgulhoso alandroense. "Até a hora de ponta em Évora eu estranho". A vida na vila raiana de Alandroal melhorou há uns anos a esta parte com a reactivação do grupo de forcados, do clube de futebol Juventude Clube Alandroense, com o complexo de piscinas e a construção do Fórum Cultural Transfronteiriço que traz cinema, jazz, blues ou fados a um auditório que faz inveja a muitas cidades. "Já não somos os coitadinhos, já não aparecemos nas estatísticas como o concelho mais pobre do país", explica um habitante. "Isto melhorou para o dobro, está muito melhor", sentencia Varandas enquanto corta mais um pedaço de entrecosto. "Dantes, abalava tudo para a Lisnave, para Lisboa e os que ficavam preferiam viver em Vila Viçosa porque aqui não havia terrenos. Agora, é ao contrário". O cabo do Grupo de Forcados Amadores do Aposento do Alandroal, José Pedro Barreto, 49 anos, ainda recorda " o curral em pedra a cair" que agora foi substituído por uma praça nova. "É desmontável mas tem curros, como em Espanha. É com orgulho que Barreto exibe as fotos das pegas na sede do grupo ou circula pela arena vazia. "Em Fevereiro, fomos a Atafe, perto de Granada. Lá é uma loucura, até transmitiram tudo no Canal Sur". Foi lá que Barreto partiu uma série de dentes da frente numa pega falhada mas isso faz parte da vida de quem é forcado desde os 14 anos. "Noutro dia, fomos a Torre Blanco Pedro, em Jaén e dia 4 de Julho apresentamo-nos aqui. No Alandroal, a responsabilidade é a dobrar. Temos de honrar a imagem da terra e a jaqueta que trazemos vestida".
O ex-agricultor e poeta popular Manuel Veladas, 79 anos, conhecido por Ti Limpas, nem quer falar nos velhos tempos em que trabalhava de sol a sol numa herdade da aldeia vizinha Ferreira de Capelins e aliviava o cansaço em despique de décimas com outros camaradas. "Desse tempo, nem vale a pena falar", comenta o Ti Limpas, olhos postos no livro que a Confraria do Pão editou com os seus versos. "O Alandroal está muito melhor…se as obras estão pagas ou não, não me interessa tão pouco. Ouça esta: Alandroal é meu concelho/ concelho onde eu nasci/ e onde sempre vivi/ talvez com lei e trambelho/suponho que me assemelho/ a quem a terra é leal/ pois como é natural/ nestas ilusões mergulho/ felicito, cheio de orgulho/suas gentes sem igual…"
ÉVORA CULTURAL (CRÓNICA PUBLICADA NA "ÚNICA")
José Francisco Figueira Cid liga o interruptor do camarim improvisado do Teatro A Bruxa, em Évora, onde em sete anos produziu e encenou 18 peças, muitas com dinheiro do seu próprio bolso. “O que recebemos da autarquia e do ministério nem sempre chega. Grande parte do que ganho na televisão, nas séries e novelas, vem para aqui. O teatro é a minha vida”. A frase cai, faz-se silêncio e o brilho nos olhos do actor e encenador Figueira Cid não engana. “Isto é um antigo celeiro cedido pela câmara. Nós é que transformámos tudo, criámos a bancada para 45 pessoas mas mesmo assim não temos casa de banho nem bar nem lugar para guardar os adereços”, explica o encenador que a 12 de Julho leva a cena a duplamente premiada peça “4 mulheres de coragem” da escocesa Rona Munro. Ferreira Cid pediu 15 mil euros ao Banco para poder custear os cenários e pagar às actrizes.
Em Évora, o exemplo do Teatro A Bruxa não é único. Subsistem inúmeras associações a viver em crescentes dificuldades mas que teimam em manter uma agenda cultural rica e diversificada.
“No dia em que as associações deixarem de enviar informação, a agenda cultural da câmara acaba”, vaticina Nuno Belo, da direcção da Harmonia Eborense, uma instituição local com 158 anos , cuja programação cultural foi literalmente por água abaixo quando a ASAE entrou pelas escadas de mármore adentro e fechou o bar.
“A vida cultural da cidade empobreceu com a massificação trazida pela universidade. Esta cresceu muito depressa, arrastou muita especulação imobiliária, a destruição dos interiores de casas históricas, tornou a vida cultural menos interessante”, explica o escultor Pedro Fazenda. “Depois veio a classificação de Évora como património mundial que a empurrou para o turismo e para a transformação da cidade em cenário turístico e de realização de eventos mediáticos”.
Artistas como os escultores Carlos Dutra ou a pintora Coca Froes David recordam “tempos de outra dinâmica cultural na cidade”, quando Évora organizava o festival “Viva A Rua” e de dois em dois anos a Bienal das Marionetas. Apesar de fragmentada, a cena cultural da cidade resiste com gente que respira e vibra com o cenário arquitectónico-arqueológico ímpar. “É me muito importante a luz, os muros brancos, a geometria da cidade”, explica Coca. “Aqui há tempo e espaço para fazer coisas”, explica Bruno Cintra, do Agora Teatro. Os músicos de uma das mais jovens e promissoras bandas da cidade, a Ballis Band, levam-me para o campo, onde ensaiam blues, rock e punk numa garagem rodeada por uma atmosfera bucólica. “Só falta aqui a cadeira de baloiço no alpendre para parecer o Alabama”, comenta sorridente “James”, o baixista.
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