DIÁRIO DE VIAGEM DO JORNALISTA NUNO FERREIRA (EX-EXPRESSO, EX-PÚBLICO) QUE ATRAVESSOU PORTUGAL A PÉ ENTRE FEVEREIRO DE 2008 E NOVEMBRO DE 2010. O BLOG INCLUI TODAS AS CRÓNICAS PUBLICADAS NA REVISTA "ÚNICA" EM 2008, BEM COMO AS QUE SÃO PUBLICADAS SEMANALMENTE NO SITE CAFÉ PORTUGAL. (Travel diaries of Nuno Ferreira, a portuguese journalist who crossed Portugal on foot from February 2008 to November 2010. contact: nunoferreira62@gmail.com ou nunocountry@gmail.com
16/09/08
FANFARRA DOS BOMBEIROS DE SERPA NA FESTA DE BRINCHES
BRINCHES
SERPA, ABRIL DE 2008
Avancei até à estação de Serpa/Brinches com intenção de caminhar pelo ramal de Moura. Já uma vez ali tinha estado. É daqueles locais onde só se escuta o som das placas ferrujentas a uivar ao vento, onde o tempo congelou. Apetece sentar e ficar a ver as ervas ondulando à nossa frente.
Acontece que ao fim de uns 500 metros descobri que as ervas estavam tão altas e cobrindo os carris de tal forma que era impossível progredir.
SERPA-4-SÃO MARCOS DA ATABOEIRA-1
Fim de semana chuvoso em Serpa, nada de interessante para fazer exceptuando as tapas seguidas de imperiais da Lebrinha, decidi gastar cinco euros e ir ao futebol. Reconheci na bancada grande parte da população masculina da povoação e uma quota parte dos frequentadores da Cervejaria Lebrinha. Na imagem, o quarto golo do Serpa frente a um modesto São Marcos povoado de veteranos.
APANHA DE COGUMELOS NAS HERDADES DE CAÇA TURÍSTICA
A estrada que segue directamente do Pulo do Lobo para Serpa é um hino à desolação do terceiro país mais desertificado da Europa. Uma parte substancial da zona está ocupada por herdades de caça turística de um e do outro lado da estrada. Tudo vedado para que ao fim de semana cheguem de Lisboa os fãs da cinegética. Ali, em Abril, havia umas estranhas regras para quem quisesse apanhar cogumelos.
PULO DO LOBO-SERPA (CRÓNICA PUBLICADA NA "ÚNICA")
O "Pinta Xarolas" com as cordas com que pescava no Pulo do Lobo
Um dia, o “Pinta Xarolas” só não ficou no Pulo do Lobo porque a corda o segurou: “Pescavamos a lampreia com uma vara que segurava um arco de madeira com um gorro de rede lá dentro. Ía a puxar a vara para tirar um peixe, escorreguei, fiquei balançando preso à corda”.
Não há nada de engraçado em pular de rocha em rocha na margem esquerda do Pulo do Lobo à procura da melhor imagem da “corredeira”, especialmente ao fim de 21 quilómetros de campo, trigo, papoilas, sobral e olival a perder de vista, um silo e uma cidade lá ao longe na planície.
À medida que me emaranho no labirinto de cavidades e rochas que levam ao Pego dos Sáveis, na parte inferior da queda de água-poiso preferido dos pescadores-imagino o risco, a destreza, gabo-lhes a coragem.
“Atava a corda a uma rocha de 15 metros. Descia. Se calhava não chegar à água, voltava a atar a corda a outra rocha até chegar à pilheirinha onde me sentava”, conta António Mestre, 76 anos, conhecido como “Pinta Xarolas”. Dos que ali pescavam com cordas com ele, conta os vivos pelos dedos: “O Ti Beatriz, o António Neves...o Zé Pelica já morreu...morreram quase todos”.
Com as barragens, acabaram-se o peixe e as noites de 50 a 60 lampreias, a fogueira lá em cima, nas rochas cimeiras, preparada para o convívio. “Tenho muitas saudades. Se ainda houvesse lampreia, mesmo com esta idade, era capaz de descer essas rochas más outra vez”, diz o “Pinta Xarolas”, como que sonhando em voz alta.
Em redor, do Vale do Poço ao leito do Guadiana e dali a Serpa, o campo jaz em abandono. No primeiro troço, são os montes- o Passa Leve, o Pena Ventosa- quase todos abandonados e uma outra herdade: porquinhos pretos mamando nas tetas da mamã porca junto a abrigos metálicos preparados para estas parirem, vacas e bois especados do lado de lá da vedação metálica ao ver aparecer do nada um ser de mochila às costas, um rebanho de ovelhas debandando assustado.
“Aqui já não há quase ninguém”, comenta de sorriso envergonhado nos beiços Manuel Cavaco, 48 anos, um dos últimos habitantes de Vale Queimado, a dois quilómetros da queda de água. Um pequenino cão preto segue as pisadas de Manuel da pequena casa branca até à fornalha onde faz carvão para vender.
Dali em diante, até à vila, sucedem-se as grandes herdades de caça turística. “Os ricos de Lisboa caçam aí perdizes, lebres, até veados...”, explicam-me. À porta de uma herdade, um homem de colete à Coronel Tapioca encosta-se a um jeep e fala ao telemóvel: “O engenheiro que venha cá ver isto. Temos de resolver a situação até ao fim de semana”.
A luz do fim do dia surpreende-me a dois quilómetros das imperiais da Cervejaria Lebrinha e de uma boa cabeça de borrego assada quando um homem numa renault me oferece boleia: “Aguentas aí um bocadinho, estou cortando erva para as minhas duas éguas e já abalamos”. Deixa-me à porta da cervejaria- “Bebe duas por mim”- e convida-me para a partida de futebol no dia seguinte. Resultado: Futebol Clube de Serpa-4- São Marcos da Ataboeira-0.
PULO DO LOBO DO LADO DE SERPA
Sofri para tirar esta foto. A erosão das águas foi formando diferentes formações rochosas. Anda-se por ali aos saltos e quando menos se espera encontra-se mais uma cavidade. Ouve-se o turbilhão da torrente de água a caír mas não se enxerga quase nada porque há sempre mais uma rocha para trepar. A determinada altura, ainda me pus em calções, larguei a roupa num local seco para tentar chegar o mais perto possível da queda de água. De repente, dei-me conta do perigo estúpido da situação e desisti.
PULO DO LOBO
Do lado de Mértola, foi construída uma estrada que desemboca num miradouro sobre as rochas e que permite ver o pulo das águas em segurança. Deste lado, o de Serpa, é muito perigoso querer chegar junto das águas revoltosas e espreitar. "A maioria das pessoas fica lá em cima e acaba por não ver nada", explicaram-me mais tarde em Serpa, "não há condições de segurança para andar lá em baixo".
A CAMINHO DO PULO DO LOBO
MANUEL CAVACO, EX-PESCADOR. AGRICULTOR, PRODUTOR DE CARVÃO JUNTO AO PULO DO LOBO
Ali por aquelas bandas, cada monte tem um nome. O Passa Leve, o Pena Ventosa. Manuel Cavaco vive ali sózinho em Cabeceira de Vale Queimado, um cão preto pequenino a fazer-lhe companhia. Dantes ainda pescava sável e lampreia no Pulo do Lobo, uns dois quilómetros de estrada de terra batida sempre a descer. Uma corda grossa atada a uma rocha, uma rede com um gorro. "Em descendo lá baixo, não há medo. Nunca escorreguei. E nesse tempo, vendia-se bem a lampreia. Agora já não se apanha nada". De modos que agora, Manuel Cavaco faz carvão, semeia qualquer coisa e por ali se mantém. "A maioria desses montes para aí estão todos abandonados. Já foi ali ao Ti Beatriz? Esse também lá pescava".
PRIMAVERA PERTO DO PULO DO LOBO
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