DIÁRIO DE VIAGEM DO JORNALISTA NUNO FERREIRA (EX-EXPRESSO, EX-PÚBLICO) QUE ATRAVESSOU PORTUGAL A PÉ ENTRE FEVEREIRO DE 2008 E NOVEMBRO DE 2010. O BLOG INCLUI TODAS AS CRÓNICAS PUBLICADAS NA REVISTA "ÚNICA" EM 2008, BEM COMO AS QUE SÃO PUBLICADAS SEMANALMENTE NO SITE CAFÉ PORTUGAL. (Travel diaries of Nuno Ferreira, a portuguese journalist who crossed Portugal on foot from February 2008 to November 2010. contact: nunoferreira62@gmail.com ou nunocountry@gmail.com
14/09/08
ARMONA

Esta senhora corre apressada para receber provavelmente alguém que chegou no Rio Belo. Eu vou precisamente para o lado contrário, o da praia. Os homens do barco explicaram-me que posso passar as casas e o parque de campismo e atravessar os oito quilómetros de praia até ao lado da ilha de Armona que dá para a Fuzeta. "É um passeio bonito e lá tem barco para a Fuzeta".
ILHA DE ARMONA, MARÇO DE 2008
OLHÃO

Olhão estende-se por ruas, ruelas, becos e travessas. A sensação que eu tinha é que aquele labirinto de casas brancas, prédios de oito andares e avenidas, gente por todo o lado, nunca mais acabava. Um misto de Barreiro e Peniche, não foi própriamente a cidade mais simpática para terminar a caminhada naquele dia. Os pés doíam-me, a carga nas costas também e não havia meio de encontrar um local para dormir. Acabei deitado na relva de um Intermarché, na saída da cidade, a beber grandes quantidades de água, os pés descalços e a pensar se não seria melhor continuar em direcção a Tavira.
FUNERAL EM ESTÓI

Foi estranho. Ia a passar junto a um campo de futebol em terra batida. Umas jovens crianças em bicicleta tinham tapado o rosto para eu não as fotografar. De repente, surge-me este funeral. Afastei-me o mais que pude para não incomodar ninguém e tirei a fotografia. Senti-me um intruso num momento da vida local. Alguém conhecido faleceu e eu, ali de passagem, a intrometer-me na vida e morte de Estói.
ESTÓI
CIMENTO
JOSÉ DAS NEVES

O mestre José das Neves inspecciona a fractura na rocha. Dali do lugar de Funchais, Bordeira, Santa Bárbara de Nexe, saíram mais de cem canteiros. Começaram em crianças nas pedreiras da zona e acabaram a restaurar monumentos em Lisboa, Cascais e em Paris. "Lá em Versailles, 'tá trabalho cá do velho. Os monumentos em França estragaram na guerra e a poluição e o gelo também dão conta deles. Não faltava trabalho à gente". E No Sacré Couer? "Uh, essa pedra era mais rija que um raio, mais dura que ferro".
E agora? "Agora imita-se o que se fazia com as máquinas".
MESTRES DA CANTARIA, JOSÉ DAS NEVES E JOÃO DESIDÉRIO, BORDEIRA, SANTA BÁRBARA DE NEXE
VISTA DO CASA PAIXANITO

Cheguei a Loulé morto de cansaço e de fome. Decidi vingar-me nas entradas da famosa Casa Paixanito e acabei a gastar uma fortuna, entre carapaus alimados e xerém com berbigão e camarão. De repente, toca o telemóvel. Para não incomodar, vim atender a família cá para fora. Quando dei por ela, já tinha o empregado mais novito ao meu lado. Surrealista...
MERCADO DE LOULÉ

Começou a chover bastante a uns dois quilómetros de Loulé. Encolhia-me dentro do meu equipamento impermeável quando parou uma Renault 4. "Queres entrar?", perguntou um tipo aí com uns 20 e tal anos. Contou-me que atravessou a costa leste da Austrália de mochila e camioneta. "É sempre um prazer ajudar um mochileiro", explicou. Pensei como seria bom se todos em Portugal fossem assim.
MORTE NA ESTRADA ÀS PORTAS DE LOULÉ
ARTESANATO
PARRAGIL-LOULÉ

À medida que se desce o Barrocal e nos aproximamos de Loulé, os rostos abrem-se e atmosfera junto à estrada transforma-se. Senti alívio em ter deixado a serra e as povoações imersas naquela desconfiança atávica. Mais tarde, contaram-me que a GNR tem andado a circular por todos os povoados a incentivar as pessoas a desconfiarem dos estranhos.
ALTO FICA

Um dos problemas no interior serrano do Algarve é a ausência de locais simples para comer. Parei em Alto Fica porque tinha dois cafés mas nada. Sentei-me no exterior de um deles, vigiado por uns locais à porta do estabelecimento defronte. Por essa altura, já os meus níveis de paranóia estavam no máximo. Até que ouvi alguém: "Ele esteve fotografando a tua moto".
BENAFIM
ALTE

Em Alte, há uma dona de uma loja de artesanato que sempre que me via- estive lá uns dias- comentava: "Hum, a pé? A pé até ao Minho? Você não vai conseguir..." Depois, virava-se para uma amiga acabada de chegar: "Achas que ele consegue atravessar Portugal a pé? Nã consegue..."
Ficavamos a conversar e a ver chegar as excursões de turistas vindos das bandas do litoral: "Ca c'est combien? Oh, merci..."
08/09/08
JOSÉ BRANCO, VENDEDOR DE BALEIZÃO

A partir de uma dada altura, para tentar colocar à vontade os desconfiados serrenhos algarvios, ao chegar a um café, além de pedir uma bebida, tirava a máquina fotográfica para fora da mochila, o computador, até que uma pergunta estoirasse: "Então e tu és jornalista? E andas a pé? E não tens medo?" No final, já acabavamos a falar da chuvinha que não servia nem para regar as favas ou da rapariga da localidade que para falar ao telemóvel com o namorado tinha de subir a encosta todos os dias.
Foi num desses cafés que encontrei o grande José Branco, alentejano de Baleizão: "Este pessoal? Desconfiam de tudo..." Dito e feito. Na próxima povoação, disse alegremente "boa tarde" à primeira pessoa que encontrei. Resposta sumida e de olhos no chão: "B'tarde..."
MONTE RUIVO

Em Monte Ruivo avistei um rebanho de ovelhas a pastar junto à baliza do campo de futebol. Infelizmente, quando lá cheguei, elas e o respectivo pastor, já tinham encetado uma peregrinação pela encosta. Para chegar ao campo, tive de passar numa rua de casas baixas e brancas. Uma mulher ía a saír de casa, viu-me, escapuliu-se para dentro de portas. Quando voltei, tinha-se juntado a outra no lavadouro, as duas a observar-me em silêncio. Dessa vez, não me contive: "Oh minha senhora, está desconfiada, chame a guarda!"
ZAMBUJAL

Depois de descer desse ninho de hospitalidade chamado São Barnabé e passar por mais uns montes em ruínas, avistei ainda da estrada em terra batida, um bonito vale repleto de laranjeiras com meia dúzia de casas. Como sempre, sonhei em parar num café. Primeiro, de uma casa a desfazer-se, surgiu um homem que parecia saído de "Voando Sobre Um Ninho de Cucos" e que me seguiu silenciosamente, com o olhar, até eu desaparecer.
No cimo de uma rampa, vi três mulheres. Corri a perguntar para que lado era Alte. Uma delas agitou a mão como a enxotar uma galinha e disse: "p'ra ali, p'ra ali!"
NA SERRA DO CALDEIRÃO (CRÓNICA PUBLICADA NA "ÚNICA")

São sete horas de uma tarde chuvosa. A noite já caíu em São Barnabé, concelho de Almodôvar, posto avançado da civilização na Serra do Caldeirão. Nesse dia perfiz horas de caminhada, inclinado nas subidas com a maldita da mochila feito sherpa do Tibete, entre ruínas de montes abandonados, urze, estevas, medronheiros, sobreiros, hastes de oliveiras queimadas, as curvas cortadas no xisto e em terra batida sucedendo-se umas às outras. O último sinal de vida fora em Fonte de Ribeiro, um tipo encavalitado numa Famel-Zundapp a desfazer-se e a perguntar: “Então e nem uma bicicleta tem?”
Agora, calcorreio ruas brancas e vazias a perguntar-me o que fui para ali fazer. Trepo uma ladeira. De repente, uma luz. Uma serrana espreita e fecha a porta. Outra surge na esquina como uma miragem mas quando lá chego já não está lá. Entro num café a meia luz de uma velhinha, um idoso imovível a um canto a olhar para mim como uma câmara de video-vigilância. “O que quer o senhor?”, “é de onde?”. Sento junto à porta e ouço-as a coxixar junto à lareira: “é de Lisboa...”
Hora e meia mais tarde, sou resgatado por um taxista de Almodôvar, mais de trinta quilómetros a norte: “Uh, aquilo ali é gente muito fechada, vivem para ali isolados, têm medo da própria sombra”.
Dia seguinte, regresso a São Barnabé para descer a serra: “Você não esteve cá ontem? Então porque é que não começou a caminhar lá mais em cima?” No vale verdejante de Zambujal peço informações a uma mulher que correra rua acima: “É sempre em frente, sempre em frente...”, diz, a mão como que a enxotar uma galinha.
Ali, uma fotografia a um poço, a uma porta, o simples gesto de mexer nos bolsos é seguido à distância. As mulheres reunem-se no cimo da rua à minha passagem a comentar e desvanecem-se quando me viro para trás. Num café em Monte Ruivo, um homem de chapéu preto e abas retorcidas explica: “Com a gatunagem que anda aí, não é de ter medo?” A dona corrobora com um aceno da cabeça. Desconfia de potenciais larápios, da ASAE e dos funcionários da empresa intermediária HISA (Higiene e Segurança Alimentar) que passam ali regularmente para lhe exigir que mude o gelo ou altere algo no balcão. “Pago 70 euros para verificarem tudo mas nunca estão satisfeitos...”
Sou salvo dali pela carrinha de José Branco, 42 anos, jovial vendedor alentejano nascido e criado em Baleizão: “Isto é meio mundo a roubar meio mundo...”. Partiu de Beja naquele dia e por sua vontade, ia dormir de novo lá acima: “Já o meu pai não gostava dos algarvios que íam para lá trabalhar na ceifa. São desconfiados. Eu só ando aqui porque a vida está péssima e temos de ir a todo o lado a ver se vendemos alguma coisa”.
SÃO BARNABÉ

Subi a Serra do Caldeirão com a mente fixa em São Barnabé, uma minúscula povoação de serrenhos que já pertence ao concelho alentejano de Almodôvar mas não é nem Algarve nem Alentejo, é serrenho. Há muito tempo que os habitantes dali se acostumaram a viver isolados e a falar "lá no Algarve..." Bem que os últimos habitantes, todos entre os 70 e os 80, podem também falar "lá no Alentejo...". São Barnabé, a 36 quilómetros de Almodôvar, fica longe de tudo.
Para piorar as coisas, cheguei já noite escura e sob chuva. As portas fechavam-se quando me viam passar. Não havia rede de telemóvel. Felizmente, descobri uma cabine telefónica. Enquanto esperei que um táxi me viesse tirar daquele buraco, fiquei, vestido com o meu fato impermeável que me transmitia ar de astronauta, na mesa do único café aberto. Um idoso não tirava os olhos de mim enquanto escutava o sussurrar de duas velhas, encolhidas numa cozinha, junto a uma lareira: "Diz que é de Lisboa, eu não sei..."
FOZ DE ODELOUCA

Subi e desci a Serra do Caldeirão desde Foz do Ribeiro para encontrar outra povoação semi-deserta, Foz de Odelouca. Ao todo, vi umas cinco pessoas. A aproximação aos montes e casas é feito ao som do ladrar dos cães. Ali ninguém usa alarme, o alarme são os cães quase sempre acorrentados. Toda as pessoas no vale ficam a aperceber-se da minha chegada devido a eles. Só se calam depois de desaparecer na curva final.
SERRA DO CALDEIRÃO
SUBIDA DESDE FOZ DO RIBEIRO
FOZ DO RIBEIRO

Foz do Ribeiro foi a primeira povoação digna desse nome que apareceu no meu trajecto Serra do Caldeirão acima. Entrei num café, pedi uma cerveja e vi a dona do estabelecimento entregar-me a garrafa à distância, o olhar entre o desconfiado e o receoso. Um homem de aspecto doente e alcoolizado vigiava-me à distância. Deixei-me ficar a beberricar a cerveja numa espécie de esplanada rural, enquanto homens íam e vinham, parando Famel-Zundapps ou carrinhas de porta aberta. A atmosfera só degelou quando expliquei que era jornalista. "Minha senhora", expliquei, "tem de desconfiar é de quem aparece aqui de fato e gravata a querer vender-lhe alguma coisa". A dona, a mão no rosto: "Ai, mas a gente nã sabe...ainda por aí tanta gatunagem..."
Fiel aos seus princípios, o cão na foto nunca largou as suas cabras enquanto não me viu passar. Já no fim da aldeia, um agricultor: "Atão mas nem bicicleta tem?"
MESSINES
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